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NA HORA DA PARTIDA…

RITA TEIXEIRA
Todos nascemos e todos morremos, ponto final, parágrafo. Essa é uma verdade inquestionável e inegável. Quando se sabe que um bebé vem ao mundo, todas as conversas giram à sua volta, criam-se expetativas, constroem-se sonhos para a sua vinda, vai-se comprando o enxoval, pensa-se no nome a dar-lhe, imagina-se a quem sairá e o mundo gira à espera desse momento. 
Pelo contrário, quando se sofre de uma doença incurável, quando a enfermidade nos bate à porta, levando com ela uma doença rara e incurável, por mais que tentes, a conversa sobre a tua partida passa a ser um tabu. Queres falar da doença, da sua evolução, do sofrimento durante a jornada e no final da vida, torna-se impossível, porque todos se afastam ou desviam o tema. 
Assim como todos rejubilam com a vinda de uma nova vida ao mundo, também todos deveriam rejubilar com a partida dessa pessoa enferma, que já não vive, apenas vegeta.
Sofres as dores de um corpo inútil e sofres as palavras não pronunciadas que revelavam os teus ensejos para a tua despedida.
Pois é, o infortúnio entrou lentamente no meu organismo, mas foi a escolha errada. Não fiquei impávida, à espera que a doença me levasse rapidamente. Entrei numa guerra com E. L. A. e cada ano que passa, é uma vitória para mim. Meu corpo vai-se deteriorando, contudo ainda continuo a visualizar a beleza nos recônditos da natureza, a fantasiar-me no carnaval e no dia das bruxas, pregar partidas a certas pessoas, a dar gargalhadas genuínas, porque, para mim, a vida é um bem precioso a ser defendido com as armas que mantenho, apesar das duras batalhas que já enfrentei: alegria, amor, amizade, fé, persistência, tenacidade, e sofrimento em silêncio. Embora não consiga conversar sobre a minha partida deste mundo, servir-me-ei desta tecnologia, para expor a minha vontade, na hora do adeus. Que o meu corpo vá para a sepultura da minha família, no caixão mais simples, uma vez que defendo a simplicidade como um valor a priveligiar. 
Que as pessoas que realmente nutrem algum carinho por mim, sorriam no meu velório, pois a minha alma já estará juntinho de Deus. 
Que, durante a missa, seja lido um texto escrito para essa hora. Que, no final da missa, haja um momento de partilha de algo que sempre adorei dançar “malhão antigo”. Melinha, aguardo por essa dança, se não houver impedimentos. Que o meu funeral não seja um negócio, mas uma dádiva à instituição da C. E. R. C. I. em Alpendorada. Para tal, o dinheiro que gastariam em ramos e coroas de flores seja depositado numa caixa, junto ao caixão. Que, ao regressarem ao vosso lar, partam com um sorriso no rosto, cientes que já me encontro ao colo de Deus, a olhar por vocês!!

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