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FALEMOS DA VIDA

REGINA SARDOEIRA
A vida, falemos da vida, esta, que a todos bafeja com o hálito fecundo das grandes odisseias, esta, que se ganha na inconsciência silenciosa de um útero criador e depois se expande até aos limites do corpo, quando não para além, falemos dela, a centelha fulgente em cada manhã, respirando haustos e sorvendo fluidos, a vida, muito naturalmente pulsando nas veias, sem que demos conta, e depois triturada nos ontens e perdida nos amanhãs, onde deixamos o sonho e enterramos o limite. 
A vida, se é um dom, cumpre -se em nós ao rés da ignorância, desata-se em ondas de escória variada, perde -se nos tormentos de vaga alucinação, sepulta-se em redes de estulta ignorância. Mas falemos dela, ao mesmo tempo que a vivemos, apanhemos o segundo do êxtase, antes de o deixarmos consumir em tédios variados. E, se for preciso, não hesitemos em tomar o pulso a nos mesmos, quando o sono se confunde na vigília de madrugadas perdidas, para termos a certeza que não foi esta ainda a hora da retirada. E olhemo-nos uns aos outros, sem temer julgamentos ou má-fé, na cintilação fugidia das pupilas errantes por onde vagueia o reflexo de nós – se o quisermos ver. 
Sim, falemos da vida, mesmo que a nossa voz traga invencíveis silêncios e o nosso olhar se turve em múltiplas cataratas, falemos dela, quando a ameaça romper dos fundos que atolam a surpresa e o júbilo, não permitamos a chegada do olvido e o negrume deletério da morte anunciada. E, mesmo aí, saudemos a vida que nos permitiu elevarmo-nos ao cume e depois descer, repletos de bênçãos. 
A vida, falemos dela, mas não queiramos defini-la ou acorrentá -la em tenazes de pânico, deixemo -la fluir ou deter-se como o regato que corre ou a gota de orvalho suspensa do cálice da flor. 
A vida, saibamos subir com ela na torrente de uma vaga e deixemo-nos ir, confiantes no momento em que a água enrola na turgidez do areal. E louvemos o sol, não como faríamos a um deus de qualquer crença, mas como a estrela, nossa mãe fecunda, nossa razão de ser e de estar vivos. 
A vida, falemos dela em tom de prosa, mas deixemos que a música venha para apanhar -lhe o rasto poético e fiquemos tranquilos, porque ela entesoura-se em nós, quer o saibamos, quer não. 
Homens, medidores do tempo e de todas as coisas, homens, consciência das épocas e matriz das gerações, homens, paladinos do acaso e guardiões das certezas, homens, reféns do determinismo e vagueantes de inomeáveis incertezas: pratiquemos a vida, sabendo que podemos falar dela, se quisermos, ou guardar o supremo silêncio.

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