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APARIÇÃO: O RETRATO

REGINA SARDOEIRA
Embora não seja, de facto, possível explicar uma obra de arte (seja qual for a expressão usada), a verdade é que as interpretações são inevitáveis. Considero importante deixar o campo absolutamente livre a quem observa; e contudo uma sucessão incontável de ideias e de sentimentos ligam-me, inextrincavelmente, a este quadro que intitulei Aparição. 
Para além de ter sido a obra homónima de Virgílio Ferreira, no centenário do seu nascimento, o pretexto desencadeador de uma hipótese de partilha de palavras, de pensamentos e de acções a ocorrerem no futuro, e de esse futuro nunca ter acontecido, o desejo de tornar a pessoa ainda presente, apesar da inevitável perda, levou-me a querer pintar-lhe o retrato. 
De posse de uma pequena fotografia tipo passe, iniciei o esboço. Durante algum tempo, a tela permaneceu quase em branco pois eu sei, por experiência, que não é no desenho que obtenho o ser daquele que retrato, mas depois, quando acrescento cores e matizes, sombras e luminosidades. 
O acto de pintar um retrato tem o seu tempo. Por essa razão demorei meses a iniciar a composição propriamente dita, fiz um primeiro enquadramento recorrendo à técnica da colagem, rodeei o esboço de imagens, palavras e símbolos, uns, decerto óbvios, outros, obscuros – que de obscuridade também é feita a essência de um homem. 
A seguir, comecei o retrato. E, quando, ainda incipiente, a figura dele se apresentou e o olhei, de longe, percebi que o afogara num oceano de papéis colados e envernizados e que era, pois, urgente, dar-lhe liberdade. 
Arranquei os pedaços que não resistiram ao meu esforço, desta feita destrutivo, cobri com tinta aqueles que ficaram e, bruscamente, no centro da tela, o homem retratado revelou -se. Soube que lhe captara o ser, deixei-o estar à minha frente, nessa brusca aparição; e foi então que percebi a inutilidade de inventar-lhe o busto que a fotografia não me revelou. 
O espaço vazio, por debaixo do rosto sugeriu-me, vagamente, a hipótese de um reflexo. Mas, arredei a sugestão aquática e, recorrendo à espátula, rapidamente, criei o cenário (tido, no momento como exemplar) dos livros antigos e da vela com o seu halo de luz difusa. 
Estava criado o retrato, aparecia o homem, fisicamente perdido há um ano atrás e ali presente em apoteose. 
O trabalho de burilar os contornos do rosto acrescentou-lhe realismo, sem lhe tirar presença. E a vela ganhou um rasto branco de cera, a escorregar sobre os livros como que a desintegrar-se numa fusão com outros materiais. 
Uma representação de simbologia óbvia? Sim, decerto. Quis fugir, primeiro, ao livro, aos poemas de cuja metáfora fiz colagem; mas o homem retratado mostrou-me angústia e libertei-o da matéria onde o havia submergido. Surgiu uma pessoa, viva e expressiva, a impor a sua presença no meio dos livros antigos que sobrepujou, para limpar a obscuridade da luz bruxuleante da vela e erguer-se no azul da manhã. 
É desta aparição que falo quando intitulo, deste modo, o quadro. É esta espécie de poder que evoco quando percebo que trouxe à vida, de novo, o homem que dela se ausentou há um ano atrás. A outra aparição, contida no livro homónimo de Virgílio Ferreira, esteve connosco (comigo e com ele) dias antes do acontecimento – limite que retirou o homem retratado da presença dos vivos. 
Entreguei o quadro (a custo, confesso, porque ele é a minha criatura) para devolver o homem, Adão Campos, à Biblioteca da Escola Secundária de Marco de Canaveses; mas não me atrevi a seguir a minha criação, presentificando-me lá, no dia em que alunos e professores vão homenagear post mortem aquele que foi (que é?) o espírito do lugar. A minha presença pecaria por excesso e se palavras quisesse dizer elas não me sairiam. 
De um modo íntimo, cuja natureza só poucos lograrão entender, eu estou lá, nessa aparição de um homem que se me revelou e cuja presença etérea senti em todos os dias que expus o quadro à frente dos meus olhos. E eu desejo que o lugar que lhe derem nas paredes do espaço a que ele, em vida, deu significado pleno, seja honrado e perdure.

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