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ACERCA DAS BARBÁRIES

REGINA SARDOEIRA
Há dias pronunciei-me sobre a infância, melhor: aludi à irresponsabilidade que considero estar na base de toda e qualquer gravidez, a levar a cabo no tempo em que vivemos.
A pessoa, com quem assim trocava ideias, arregalou os olhos, em notório repúdio . 
“Então, nunca mais devem nascer bebés?” 
Confirmei esta minha, já antiga, convicção. 
“Não! Os humanos deveriam, muito simplesmente, deixar de reproduzir-se.” 
“E depois?” 
“Trabalhávamos para mudar o mundo, estabilizávamos as gerações, dávamos à terra, de novo, um rosto humano e à natureza as qualidades perdidas, e depois poderíamos procriar.” 
A conversa seguiu outros rumos, mas eu soube que esta minha hipótese radical não encontrou adesão do outro lado. 
De facto, cada ser humano está de tal modo imbuído de si e dos seus paradigmas, que mediocremente observa o lado de fora – ou seja, o ambiente em que os seres humanos gerados vão crescer. 
Alguém que deseje ter um filho, hoje, precisa de observar muito bem o tipo de educação que vai poder dar-lhe, que valores será capaz de transmitir -lhe, que modelos lhe apresentará como recursos de modelação do carácter. Precisa de equacionar seriamente se ele próprio terá os meios adequados para ser o responsável pela criança que quer gerar, se tem a experiência e o conhecimento necessários capazes de encaminhá -la pelas veredas tortuosas do mundo em que vive, se poderá defendê -lo dos males, se terá engenho para fazer emergir o melhor e criar um ser humano apto para a vida. Deverá olhar à sua volta, lucidamente, e ver se este mundo em que vive e que tantas vezes critica, este mundo onde, tantas vezes, lhe é difícil avançar e criar um caminho, este mundo em que a violência impera e o abuso e o vício são normas do quotidiano, este mundo robotizado, em que as máquinas se vão substituindo ao engenho humano e a inteligência artificial dispensa grandemente o uso da natural, deverá responsavelmente questionar a validade do seu desejo de ser pai. 
Nesse mundo futuro, onde vão crescer e ser adultos os embriões de hoje, existirão ainda livros e bibliotecas ? Espaços verdes e jardins por onde correr e vaguear tardes inteiras? Recantos tranquilos para encontros e conversas? Livre expressão de talentos artísticos a despontar no bico de um lápis? Questões inocentes a quererem ser desvendadas à hora do jantar? E haverá hora do jantar? E jogos feitos à mão? E pequenas perícias descobertas em exercícios simples de lazer? 
A lista de questões poderá ser continuada, talvez para nunca encontrarmos o seu limite: porque esse mundo saudável, onde crescer era uma aventura partilhada entre os mais jovens e os mais velhos, onde havia tempo a gastar e companheirismo a ser construído para durar, esse mundo de jardins e florestas impolutos, de relíquias conservadas, de restauros a fazer, esse mundo de humanos para humanos desapareceu.
As crianças nascem, como outrora. Mas já não se considera imprescindível ter à sua espera um pai e uma mãe ligados, para formarem o núcleo da sua construção como ser humano. É sabido que um recém-nascido é uma criatura precoce e inacabada e que demorará muitos anos até poder responsabilizar-se por si própria. Se lhe faltarem as figuras tutelares da sua formação, os dois, o homem e a mulher de quem é oriunda, a saber, o pai e mãe, como vai cumprir o seu desígnio humano – integralmente? 
Ora, hoje em dia, é comum um homem ou uma mulher, por si sós, ignorando a dualidade imprescindível à formação do ser humano, decidirem ter um filho – recorrendo a outra pessoa que a fecundará ou servirá de receptáculo, que depois descartam, num acto insensato de egoísmo e estultícia. É comum os pais separarem-se, e logo encontrarem outros companheiros que apresentarão aos filhos como pais/mães substitutos. É comum largarem os filhos em frente aos ecrãs, crentes de que os bonecos robotizados são melhores educadores do que eles próprios. 
Eu vejo um mundo de crianças que já não precisam de aprender a ler ou a escrever porque apenas necessitarão de capacidade para pressionar as teclas – e, no espaço neuronal que ia crescendo, à medida que essas habilidades se firmavam, vejo um buraco vazio e informe. Eu antecipo um tempo em que as crianças não terão necessidade de falar, porque um mundo avassalador de vozes e de imagens poderá substituir essa competência com vantagem – e as sinapses encadeadas no trabalho de modular frases desarticular-se-ão, por se terem tornado obsoletas. Desaparecerá o cálculo e o desenho e a literatura e a poesia – tudo será, doravante, mecanizado, e as máquinas, grandes ou minúsculas, sem as quais a humanidade já não pode e não quer passar, refinar-se-ão a um ponto tal que elas próprias se tornarão criativas. 
Não esgotei o assunto, nem tenho a pretensão de ter sido suficientemente explicita. O tema é complexo e decerto os homens não estão ainda prontos para contemplarem a extensão da sua própria decadência. Desse modo, continuarão a construir pseudo-famílias e a gerar filhos, órfãos de muitos afectos e órfãos até de si mesmos, perpetuarão, deste modo, um mundo descaracterizado, onde estranharão viver, sem perceberem que foram autores e responsáveis da barbaridade anunciada. Porque esse mundo, já instalado, mas ainda a erigir-se, corresponde, ainda que com outros matizes, à barbárie primitiva – de onde viemos e, afinal, para onde caminhamos.

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