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A REALIDADE ALÉM DO DÉFICE

MOREIRA DA SILVA
O foguetório lançado na divulgação do défice de 2,1% teve o condão de despertar muitos portugueses para o facto de que afinal o défice é muito mais importante do que os partidos que suportam o atual governo diziam, quando estavam na oposição, principalmente os partidos das esquerdas da esquerda, que invocavam a “ditadura do défice”. Ainda está bem presente na nossa memória.
O défice de 2,1% é muito bom, pois quase que fica assegurado que Portugal saia do “Procedimento por Défices Excessivos”, só que não corresponde, nem de perto, nem de longe, a um aumento da qualidade de vida dos portugueses e a uma melhoria do estado do país. Embora a governação tente passar a mensagem de uma extraordinária vitória e a prova de que o país afinal está no caminho certo, contra todas as previsões dos organismos internacionais e também da oposição.
Mas o foguetório governamental não se limita ao défice, pois também é festejado o facto de o país ter tido uma diminuição de um ponto percentual da dívida liquida, ter tido um saldo primário positivo, ser o início da estabilização da dívida bruta e o começo da redução e estabilização do sistema financeiro. Também foi anunciado pelo governo, a criação de milhares de postos de trabalho.
Os números divulgados recentemente permitem sustentar a tese da governação, mas também a tese da oposição. Há números para todos os gostos e feitios, e por isso cada “lado da barricada” agarra e trabalha a sua comunicação em função do que mais que lhe convém. A governação agarra-se com toda a força ao défice, como o melhor dos últimos 40 anos de democracia. A oposição, por exemplo, atira-se à monstruosa dívida, que aumentou aproximadamente 7 mil milhões de euros. E assim, ambos vão navegando no mar tempestuoso dos números, das estatísticas e das folhas de “Excel”.
Se não fosse este ano, um ano de eleições, até seriamos levados a acreditar que foi um “milagre”, o facto de ter sido conseguido um défice de apenas 2,1%, mas a realidade mostra um menor crescimento em várias áreas, como no consumo interno, na atividade económica medida através do Produto Interno Bruto (PIB), no investimento e nas exportações. São valores que caíram em 2016, comparativamente ao ano de 2015, exceto a dívida pública que continua a aumentar assustadoramente.
A realidade para além do défice continua a mostrar uma situação grave, como por exemplo: o flagelo do desemprego que teima em continuar com taxas na ordem dos dois dígitos; o número obsceno de portugueses que vivem na pobreza ou em risco de pobreza; a exclusão social com números exagerados; a precariedade económica e social, com a realidade do trabalho temporário e dos falsos recibos verdes; as pensões e reformas de miséria; os milhares de jovens que saíram para o estrangeiro à procura de trabalho e ainda não podem regressar, se desejarem; o baixo nível de rendimento auferido por parte substancial da população.
Também se verifica uma ausência de reformas estruturais, que os partidos que suportam o governo exigiam quando eram oposição e que são necessárias, para que o país caminhe na direção da pujança económica e social, pois a realidade também nos mostra que Portugal continua a ser um país tão desigual, tão assustadoramente assimétrico.
Ao longo dos últimos tempos foram exigidos sacrifícios, a que os portugueses responderam afirmativamente, mas até agora nunca foram beneficiados em nada, pois as poucas políticas sociais implementadas não chegaram a resultados que se fizessem sentir significativamente, na sua qualidade de vida.
Para que haja um verdadeiro combate ao flagelo social é preciso que Portugal tenha um forte crescimento económico, que terá de ser feito com as empresas, os empresários e os trabalhadores. E nunca contra! 

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