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ACERCA DAS BARBÁRIES – SEGUNDA PARTE

REGINA SARDOEIRA
“Não esgotei o assunto, nem tenho a pretensão de ter sido suficientemente explicita. O tema é complexo e decerto os homens não estão ainda prontos para contemplarem a extensão da sua própria decadência. Desse modo, continuarão a construir pseudo-famílias e a gerar filhos, órfãos de muitos afectos e órfãos até de si mesmos, perpetuarão, deste modo, um mundo descaracterizado, onde estranharão viver, sem perceberem que foram autores e responsáveis da barbaridade anunciada. Porque esse mundo, já instalado, mas ainda a erigir-se, corresponde, ainda que com outros matizes, à barbárie primitiva – de onde viemos e, afinal, para onde caminhamos. “
Obviamente, o assunto não fica esgotado, nem poderia, uma vez que implica avanços no tempo, esse tempo, decerto obscuro, na sua impossível actualização, mas já palpável nos sinais do presente. 
Depois de assim ter reflectido sobre a catástrofe que, eventualmente, poderão vir a ser as novas gerações – falo dos que nasceram há dois ou três anos, dos que vão nascer em breve e daqueles que estarão em gestação ou ainda não foram sequer gerados – evoquei uma obra publicada em 1932, por Aldous Huxley, a saber O Admirável Mundo Novo. Nesse livro, os novos homens eram gerados sem mãe nem pai – aliás essas palavras haviam sido banidas e transformadas em…palavrões – eram programadas previamente para serem alfas, betas ou epsilons, e assim serem muito dotadas, pertencendo às élites dirigentes ou medianamente dotadas, feitas para serem assessoras das élites ou francamente pouco dotadas e constituírem as classes trabalhadoras. Nenhuma destas classes desejava ser diferente. Os alfas eram-no naturalmente e faziam jus à sua estirpe, os betas sentiam-se perfeitamente enquadrados nas suas funções secundárias e os epsilons, sendo a classe inferior, não almejavam subir. 
Os bebés eram criados em conjunto, em dormitórios, e um altifalante ia-lhes sussurrando diariamente, hora a hora, os ditames das suas respectivas funções no mundo. Quando cresciam o suficiente já sabiam a que lugar pertenciam, quais os seus talentos e funções. Restava-lhes corresponder ao que lhes havia sido instilado, antes de nascerem e durante os seus anos de educação subliminar. 
Quando, pela primeira vez, me defrontei com esta utópica concepção do mundo futuro – o admirável – não supus que uma tal alegoria fosse um dia aparecer à frente dos meus olhos. 
Como era possível um tempo sem pais nem mães, sem famílias, portanto, um mundo de castas, cujo ADN não proviria das células reprodutoras mas de uma selecção artificial, em que os talentos específicos e adaptados às necessidades da sociedade seriam engendrados, de acordo com os respectivos interesses? Um tempo sem competição, sem desejos, no qual ninguém procura subir de nível, porque está, a priori, satisfeito com a sua marca de génese? Um mundo em que a educação é sussurrada por vozes convincentes, e onde a criança estará perfeitamente apta para o treino posterior e consonante? 
Mas agora vejo o embrião desse admirável mundo, vejo-o no rumo que segue a civilização, na queda de certos valores, tidos como fundamentais, e na ascensão de outros em tudo contrários aos que ainda são vigentes. Ainda há pais, mães e famílias – é um facto – mas essa célula social paradigmática está francamente em declínio. Filhos sem pais, objectivamente identificáveis, logo sem vinculação real de sangue, existem e, aos poucos, serão a norma. Crianças obtidas por meios artificiais, sem que para tal haja troca de fluidos entre um homem e uma mulher, começam a ser factos. E em breve, teremos catálogos pelos quais, não necessariamente um pai e uma mãe, mas uma cidade, um estado, um país podem escolher o tipo de seres humanos de que necessitam para funcionar. 
O admirável mundo novo será um mundo funcional, exactamente. Se houver música ou literatura ou ciência ou qualquer expressão artística, elas deverão ser um meio para a harmonia desses homens e dessas mulheres, uma ferramenta ao serviço da eficácia. Tudo o resto declinará. 
Nós, os homens e mulheres actuais, somos epígonos, as últimas gerações do velho mundo. Uma camada indefinida de gente desequilibrada joga, em simultâneo, nos dois mundos; educada por nós – os já dinossauros – rebela -se contra a ordem que lhe pregamos e, se a segue, é a contragosto. Eles, que hoje são jovens desorientados, a jogar num mundo, também ele desorientado, estão prestes a gerar (ou já geraram) os filhos que despedaçarão os suportes desta época e darão origem ao novo tempo. 
A tecnologia é imparável e ela é, e será cada vez mais, o elemento substituto da nossa idiossincrasia de humanos. Não seremos robots, mas tê-los -emos ao nosso serviço, de modo a não necessitarmos de fazer esforços que ainda hoje nos são indispensáveis. 
Esse homem do futuro não precisará de aprender a ler, ou a escrever, e a escola, tal como a conhecemos, desaparecerá. Não serão necessários livros e, aos poucos, as bibliotecas serão museus onde se dará conta do que cultivou os homens, noutros tempos. 
Não existirão famílias, pais, mães, irmãos, primos ou tios, mas comunidades de seres escalonados de acordo com competências pré -definidas. E as relações íntimas não serão de amor, nem terão a procriação como alvo, mas sim o gozo único dos sentidos. Será um mundo asséptico, rolando sobre engrenagens sólidas e perfeitamente previsível. 
Decerto, aos poucos, o organismo, o cérebro, os membros sofrerão modificações extremas; e, como a vida na terra já não será o que é hoje, o ar estará contaminado e as águas e os próprios animais e plantas terão sofrido profundas alterações, o que chamamos de homem, agora, não persistirá no futuro. 
Chamei-lhe barbárie, uma outra barbárie diferente da que precedeu a nossa civilização, mas nem por isso menos bárbara – porque ser bárbaro é somente ser diferente do que se considera civilizado. Ora, se nós somos detentores de civilização e a temos alimentado com valores ancestrais (que admitimos estarem em vias de extinção) os filhos dos filhos dos nossos filhos serão, exactamente, os bárbaros. 
Vejo todos os dias, à m

inha volta, os sinais inequívocos do futuro de que, imperfeitamente, reconheço, acabo de fazer o retrato. Vejo o desequilíbrio e o caos como marcas do tempo de transição que vivemos hoje, onde o velho, o novo e o incipiente conflituam numa insuportável amálgama. Percebo que não adianta querer preservar os valores que nos formaram, a nós, que somos adultos e desejamos incutir nos jovens e nas crianças as marcas que nos constituem. Eles não irão ouvir-nos, não aceitarão as nossas lições e o nosso exemplo. Ficarão desorientados, estão desorientados, são a imagem viva da nossa decadência e odiar -nos-ão porque o mundo que lhes oferecemos nada representa, nada pode representar. Mas darão à luz o novo mundo, o admirável, e tudo fará, então, sentido.

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