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ENTRE ROMANCE E ENSAIO

LUÍS CUNHA
Desde muito cedo que a literatura me fascina. As razões são incertas, até por ter crescido numa casa onde não havia livros e jamais ter visto a parentela, próxima ou distante, entretida em leituras. Não há nestas circunstâncias nada de estranho ou excecional. Nasci num país que se proclamava «orgulhosamente só», e disso dava testemunho a pobreza, uma taxa de emigração insustentável, mas também, e para o que aqui importa, uma elevadíssima iliteracia. Esse país em que nasci apenas começava a descobrir, década e meia depois do resto da Europa Ocidental, as tentações do consumismo. O frigorífico e a televisão, ainda não o automóvel, mas já, com toda a força de uma maré imparável, o pronto-a-vestir. Também os livros e os discos, linhas de consumo destinadas a uma juventude que via chegar, sem perceber bem do que se tratava, uma Revolução que mudaria o país.
Gosto de livros, não apenas de romances, e mesmo sabendo da incerteza e da arbitrariedade de qualquer fronteira quero aqui fazer uma destrinça. Desde cedo leio livros para «saber mais». Não é certo que o tenha conseguido mas garanto que me esforcei e continuo a esforçar. Procuro perceber o passado, guiado pela ideia, talvez ilusória, de que esse passado me ajuda a perceber o mundo em que vivo. Misturando prazer com dever de ofício, leio muito aqueles que no passado e no presente procuram refletir sobre esta nossa condição de seres sociais, tecedores de laços que somos, às vezes vincando o que une e multiplica, outras vezes fraturado e dividindo. Estas «leituras de saber mais» arrumam-se em estantes permanentemente desarrumadas exatamente por estarem contidas em livros circulantes, mudando de poiso de acordo com as solicitações académicas.
Há outros livros, porém, que igualmente frequento e a que atribuo outra natureza. Com a sua leitura não se trata tanto de «saber mais» mas de «viver mais e melhor». Também eles não ensinam, pois claro, mas fazem-no de uma forma diferente, desafiando-nos para exercícios de imaginação que nos fazem outros, nos transportam para outros tempos e lugares, tantas vezes para lugares que não existem e que, ainda assim, não podiam ser mais reais aos olhos de um bom leitor. Bem sei que há romances que parecem ensaios e ensaios que se leem como romances. Prometi, no entanto, deixar de fora o sortilégio das fronteiras para vincar uma diferença que é importante na minha vida de leitor. Saltito entre ambos os registos mas procuro não os confundir nem misturar um prazer com o outro. Um bom romance envolve-nos e inebria-nos; um bom ensaio envolve-nos também mas deixa-nos sóbrios. Um romance pode mudar-nos e nós podemos até sentir essa mudança acontecer em nós; um ensaio pode mudar a forma como vemos o mundo. As fronteiras a que quis fugir tenho que as recuperar aqui, para dizer que se a leitura é sempre uma ponte entre nós e o que nos cerca, é nessa imprecisa fronteira entre a densidade da vida interior e a expressividade do mundo a que pertencemos que vejo o diálogo entre ensaio e literatura.
Bem sei que a distinção entre corpo e alma é apenas um produto culturalmente definido, herança que me toca a mim e a todos quantos, como eu, somos herdeiros de uma longínqua tradição de pensamento, que reporta, pelo menos a Platão. Feita esta ressalta culturalista, assumido o relativismo da distinção, direi que a literatura me toca a alma e o ensaio me adestra o pensamento. Não espero que aos outros produza o mesmo efeito, naturalmente, nem o que disse é mais que o testemunho de quem ao crescer se foi rodeando de livros e neles continua a encontrar mundos que vão muito para lá do mundo e do tempo em que lhe calhou viver. Comecei esta crónica pensando falar de algumas personagens inesquecíveis de romances lidos. Chego ao fim sem sequer dar início a essa memória e homenagem. Ficará para a próxima, até porque os livros têm, entre tantas outras qualidades, a virtude de saber esperar pela nossa atenção.

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