Home>BIRD Magazine>COISAS DO PASSADO
BIRD Magazine

COISAS DO PASSADO

MIGUEL TEIXEIRA
Testemunho inédito sobre três figuras típicas de Cabeceiras de Basto

Reproduzo para os leitores da “Bird Magazine” um excecional apontamento de opinião da autoria do saudoso escritor local Mamede Mendes, que nunca chegou a ser publicado sobre três figuras típicas de Cabeceiras de Basto e que o autor confiou ao meu pai e seu amigo Gaspar Teixeira, poucos meses antes de deixar este mundo.
A opinião expressa neste artigo sobre o “João de Pedraça”, o “Pimenta engraxador” e o “Zé da Carrapata”, é um belo texto, de um humanismo tocante, que recria a memória histórica de três personagens da nossa terra, daquelas que “povoam” o espírito dos que os conheceram e com eles privaram e é reveladora da singular veia literária do Senhor Mamede, como “contador de histórias”. 

“Coisas do passado”
Por Mamede Mendes
As últimas criaturas típicas que viveram e andaram por estes sítios foram o “João de Pedraça”, o “Pimenta engraxador” e o Zé da Carrapata, qual delas a que possuia maior originalidade, caraterizada pelas suas figuras singulares e inconfundíveis, conforme fotografias no final.
O “João de Pedraça” não teve o consolo de conhecer a mãe, não chegando por isso a ter os seus afetos e carinhos. Sofria de epilepsia, doença que lhe originava, de quando em vez perder os sentidos, caindo ao chão como morto. Gostava, contudo, de vinho e outras bebidas espirituosas, que em muito contribuiam para acelerar mais os seus padecimentos. Por vezes sentia enormes dores de cabeça, pedindo para lhe atarem na testa uma ligadura ou pano, envolvidos em vinagre, a fim de atenuar essas dores. Às senhoras que generosamente o amparavam, chamava-lhes com imensa ternura “Minha querida mãe “.
O Borges, carregador da “viação automotora”, quando o seu estado de embriaguez era total, transportava-o na sua carreta para o Largo da Raposeira, onde geralmente pernoitava…
Assim, errando durante anos por toda a vila, de todos conhecido, foi amargamente vivendo até ao dia em que as autoridades conseguiram o seu internamento em Barcelos, na Casa de Saúde.
Aqui, porém não aguentou muito tempo, visto a sua moléstia não lho ter permitido, acabando por falecer.
O “Pimenta engraxador” vivia com a mãe, numa das barracas pertencentes ao Sr. Jerónimo, no Campo do Seco. Na sua humilde profissão foi um exímio engraxador. Engraxou a maior parte dos habitantes da vila e alguns forasteiros. Colocava primeiramente a tinta nas bordeduras dos sapatos, que espalhava com as escovas. De seguida, punha a pomada escovando fortemente os mesmos, a fim de lhes dar lustro. Por fim, com um pano bem esticado, seguro entre as mãos, que fazia deslizar pelos sapatos até estes brilharem, ouvindo-se ao mesmo tempo uns pequenos estalos que o pano ia dando, concluía o seu trabalho.
Enquanto a mãe, que muito estimava, foi viva, o Pimenta andou menos mal, trajava roupas usadas, mas bem lavadinhas, sempre muito limpo, com o almoço e a ceia a horas. Após isso, a coisa desandou, viu-se sem qualquer amparo, esperando unicamente pela caridade dos outros, começou a beber sem regra, a viver uma vida de “vagabundo”. Dormia dentro da carcaça de um velho automóvel abandonado debaixo dos “chorões” , na Praça da República. Nunca mais foi o mesmo. 
Contudo, e após esta vida atormentada, teve a sorte de ser internado no Lar da Santa Casa da Misericórdia, passando aqui os últimos tempos da sua vida, recebendo o carinho de que tanto necessitava, até ao momento em que se extinguiu, morrendo na paz do senhor.
O “Zé da Carrapata”, assim era conhecido por ser natural e viver no lugar com este nome, da freguesia de Pedraça.
Tinha uma cara patusca, andava andrajosamente vestido, descalço, calças arregaçadas, parecendo um saltimbanco. De quando em quando, vinha a pé a Cabeceiras, ao Arco de Baúlhe e Cavez. Pedia nestes sítios esmolas, mas não aceitava tostões, somente se acomodava com a “coroa branca”, como ele dizia, ou seja, a moeda branca de cinquenta centavos, vulgarmente conhecida por “Croa”.
Quando alguém lhe dava a tal “Croa” ficava delirante, numa alegria imensa, parecia até que os olhos, que mal se viam, se riam. Não se metia com ninguém, nem tinha o vício de dizer palavrões. Vivia uma vida de mendigo , sendo querido por todos, dada a sua ingenuidade. Não durou muitos anos, pois morreu relativamente novo. Eis pois, resumidamente a lembrança que tenho destas três personagens.
Cá estão eles.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.