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(R)EVOLUÇÃO SEXUAL OU GRAVE CRISE SOCIAL?

LUÍSA VAZ
Ao folhearmos os jornais ou visitarmos os sites noticiosos percebemos que por cá ou se fala da agressão ao árbitro pelo jogador do Canelas, ou da explosão na fábrica de pirotecnia ou da prisão de Armando Vara ou ainda da libertação de Dias Loureiro ao fim de dez anos de inquérito. Há também quem aflore as questões relativas ao Novo Banco e ao Montepio. Se olharmos lá para fora, temos o ataque com gás na Siria, o facto de Bannon ter sido retirado do Conselho de Estado norte-americano e a infindável novela em que se estão a tornar as eleições francesas.
Olhando para tudo isto, podemos chegar a uma rápida conclusão: de forma mais ou menos violenta, fruto de vingança ou de mera vontade de tentar aniquilar outras sociedades ou de ser um malfadado acidente, tudo gira em torno de actos ou atitudes violentas e isto deveria fazer-nos pensar sobre o estado em que se encontram as sociedades, que mensagens estão a passar aos mais novos e que educação emocional lhes estamos a proporcionar.
Num outro espectro completamente diferente podemos ver que há uma nova app que vai substituir o Tinder e que afirma que será mais eficaz no contexto do online dating ou que há pessoas que já optam por manter relacionamentos com bonecos virtuais ou mecânicos.
O QUE DIZ ISTO ACERCA DAS NOSSAS SOCIEDADES? ATÉ QUE PONTO É QUE DEVEMOS INCENTIVAR E PUBLICITAR A INTERACÇÃO MECANIZADA EM SUBSTITUIÇÃO DA HUMANA?
O mundo dos afectos é um mundo complicado mas é precisamente o que nos distingue dos outros mundos relacionais. Eu não pretendo fazer uma análise psicológica ou sociológica do tema mas apenas alertar para o que pode vir a ser algo de extrema complexidade e perigosidade pois se o Ser Humano abdica em prol do comodismo de algo que o diferencia de todas as espécies vivas – a capacidade de ter e/ou, revelar sentimentos ou a interagir com o Outro através dos sentimentos – então ele pode estar a caminhar para – tal como nos filmes dos idos anos 80 – passar a relacionar-se com máquinas e buscar nelas o afecto de que necessita. Por mais que às vezes o Homem considere que pode viver uma vida livre de laços emocionais e por mais que em algum momento até seja capaz de o fazer, é praticamente impossível, se não até contra-natura que o consiga fazer a vida toda e estar a travar essa luta ou porque não tem tempo para investir num relacionamento ou em conhecer alguém e fazer o inevitável investimento emocional para conseguir um retorno positivo na forma de uma relação estável, porque não se sabe relacionar ou porque simplesmente não quer, o recurso a bonecos mecanizados que substituem fisicamente uma outra pessoa mas não a substituem emocionalmente ou em termos comunicacionais e de aprendizagem pode ser um caminho que apesar de estar a ser seguido por alguns deve ser recusado pela maioria em nome da sanidade social.
Todos estes comportamentos isolacionistas a par de comportamentos individualizantes por mais que se abuse do tema “causas” – a causa nacionalista, a causa islâmica, a causa do género, da mulher e outras tantas leva a que a maioria apenas busque seguidores cegos para as suas bandeiras ideológicas por forma a mantê-las em primeiro plano na cena mundial e com isso desviando atenções de outros temas se não mais, pelo menos tão importantes.
Torna-se portanto inevitável e quase urgente que se repense o modelo educacional dos nossos jovens e a forma como os ensinamos a lidar com os seus próprios sentimentos e os sentimentos em relação aos outros fazendo-os saber que a frustração que a eventual diferença nos pode causar não deve ter como resultado final ou o recurso a bonecos mecanizados ou a entrada em grupos radicais que visam o extermínio.
Pode parecer que não são temas relacionados mas eu considero que estão e que devem ser tratados como duas faces do mesmo problema. Não há nada mais saudável do que conviver e aprender principalmente com pessoas que são desafiantes e diferentes, que pensam de forma diferente, que abordam o Mundo de forma distinta da nossa. Só através da evolução com base no conhecimento partilhado pode o Ser Humano ambicionar ser melhor pessoa e não é encontrando formas alternativas de estar na sociedade e nas relações que poderá ambicionar ter experiencias mais saudáveis.
Quanto mais isolado estiver o Ser Humano mais fácil será manipula-lo e levá-lo a cometer actos condenáveis ou pelo menos bizarros, isto para além de condicionar o seu consumo de bens e serviços, os locais que frequenta e tudo o resto que envolve uma vivência em sociedade.
O Homem, como ser iminentemente social não pode nem deve viver isolado e sem laços emocionais sob pena de perder a sua essência e de com isso transformar uma sociedade baseada em valores humanos numa amálgama de seres individualizados sem qualquer sentimento de pertença ou de grupo
Foi precisamente esta minha visão sobre a Humanidade que me levou a questionar se estaríamos perante uma evolução ou uma revolução mas chegada ao fim destas linhas cada vez estou mais convencida que se trata de um retrocesso civilizacional que não se prevê nos traga nada de positivo nem a médio nem a longo prazo.

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