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TERRORISMO SOCIAL

HELENA COUTINHO
Desde tenra idade, há muito quem se divirta com o sofrimento alheio. Se recuarmos alguns anos no filme da nossa memória, facilmente poderemos rever algumas cenas com requintes de crueldade, no seu estado mais puro, engendradas tanto por crianças como por adultos. Desde os que se riam sonoramente do colega que escorregou e caiu; do colega gago; do colega que se urinava quando ficava nervoso; do colega gordinho; do colega dentola; do colega piolhoso; testemunhamos verdadeiros e multidisciplinares espectáculos de escárnio e maldizer. Como meros espectadores ou como parte integrante de algum dos gangues de salteadores de auto-estima, de uma forma ou de outra, todos fizemos (ou fazemos) parte deste género de circo social. Um circo que nos habituaram a aceitar como normal e cuja tradição suspeito que deverá preceder o tempo dos bobos da corte. Tantos séculos depois continuamos a ser ora escravos ora mestres do que prefiro apelidar de “defeitos genéticos”. É difícil encontrar uma explicação suficientemente plausível para justificar a malvadez que ainda corre nas veias de tanta gente. Ocorre-me, apenas, que talvez alguns estivessem predestinados a nascer como animais racionais e que, à última hora, foram trocados, na incubadora do destino, nascendo então dentro de um corpo humano com instinto e atitudes de animal irracional. Porém, nem esta oca explicação justifica a barbaridade dos actos de alguns humanos, que superam (e muito) o analfabetismo racional dos animais.
Tal como na idade dos porquês, há muitos adultos que continuam a interessar-se por praticar experiências terroríficas só para chamar a atenção alheia, sem pensar nas consequências. Vergonhosamente e para mal da nossa espécie, alguns fazem-no precisamente pelo horror, considerado louvor, das consequências. Há quem os apelide de loucos, no entanto, loucos são os que pensam que poderão viver sempre, entre os pingos da chuva, acreditando que a loucura e o perigo morarão sempre suficientemente longe do seu corpo e da sua vontade. Uns mais ingenuamente do que outros, passam vidas inteiras a semear ventos que, mais cedo ou mais tarde, poderão parir tempestades; outros vivem autênticas eternidades condicionados pelas rédeas do medo e da manipulação. Felizmente existem também outros que se preocupam em compreender o mundo e os mundanos, à luz das evidências. Esses também temem, por ter consciência da fragilidade mental, porém não desistem da utopia de poder habitar um mundo melhor, preparando-se (e ajudando a preparar) para o melhor e para o pior dos homens.
Neste planeta, ou outro qualquer, gerido por interesses, nenhuma arma tem ainda mais poder do que o conhecimento. O conhecimento ajudará sempre a esclarecer as vantagens e as desvantagens do circo/terrorismo social. E a opção de fazer parte, pelo menos para já, continua a ser única e exclusivamente nossa.

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