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INSIGNIFICÂNCIAS

REGINA SARDOEIRA
Insignificâncias: eis o que nos é servido todos os dias, à hora das notícias, histórias vazias, propaladas e sugadas até ao âmago enquanto despertarem o apetite das multidões, mas apenas rasando a superfície do ser. 
Insignificâncias, eis tudo o que temos para alimentar a vigília, insignificâncias, eis o que elevamos à categoria de sentido da existência, insignificâncias, eis o que nos depõem à entrada do nosso pensamento, para que tudo o resto desflore e desfolhe em atonia de significado.
Sei bem que todos os homens têm um fundo e uma superfície e que as insignificâncias com que nos acenam sobre os que saíram do casulo do anonimato e se passeiam nas arenas da notoriedade não vão para além da medida rasa do ser; sei bem que esses, todos esses que por uma ou por outra razão são erguidos (ou rebaixados) até à celebridade, são muito mais do que a primeira página dos jornais, a abertura das notícias ou o instantâneo captado pela objectiva assestada aos seus fragmentos de vida. Mas nós, que espreitamos a notícia ou o instantâneo, nunca saberemos quem são, de facto, esses que, apesar de tudo, dizemos conhecer. Nunca conseguiremos ver para lá da sombra que o vulto da parafernália mediática lhes lança sobre a existência, decerto comum, decerto grandiosa, decerto angustiada…pois é esse o sinal de ser homem e de estar vivo.
Do mundo dos homens e dos próprios homens apenas avistaremos a verdade do que nós próprios somos, o significado dos nosso gestos e actos, a razão de ser da substância com que edificamos o nosso hábito de viver e, mesmo estas poucas auto-verdades só nos serão reveladas se aquietarmos a mente e sondarmos verdadeiramente o nosso mundo, não somente aquele que o pensamento e a emoção nos enunciam, de nós para nós próprios, mas também o que vemos espelhado nas faces dos que encontramos no caminho, na obra que construímos, nas escolhas que fazemos e nos sonhos que perseguimos ou abandonamos. 
Até para nós mesmos somos, pois, enigma, até o nosso rasto nos escapa, até a nossa sombra empana o brilho da nossa luz, quando tentamos ter a certeza sobre as razões dos nossos actos. Nada há, de facto, que possamos realmente conhecer. «Eu sou eu e a minha circunstância», disse José Ortega y Gasset, sintetizando de modo preciso, e contudo ambíguo até ao cerne, o que necessitamos conceptualizar para podermos dizer o que somos: porque a minha circunstância é um intrincado múltiplo e vário de seres e situações, a minha circunstância é uma plêiade de momentos e de épocas, de sonhos e de evanescências, de miragens e súbitos despertares! E eu, no meio profuso da minha circunstância, vario, uma e muitas vezes, num só dia, numa só hora, na efemeridade praticamente infinita do átomo do tempo e nunca agarro senão a superfície insignificante de que sou e não sou feita, qual instantâneo de câmara oculta, qual parangona de jornal sensacionalista, qual imagem animada de qualquer noticiário.

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