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SANTA PÁSCOA

LUÍS CUNHA
Seguindo o roteiro de anos anteriores, cumprindo os rituais sem inovações nem sobressaltos de monta, partilhámos a última semana com Cristo. Crentes ou não crentes, dificilmente nos conseguimos colocar à margem da quadra. Se não acompanhamos uma procissão ouvimos o foguetório; se não comemos o anho em família vemos a fêvera da tasquinha habitual ser substituída por bacalhau à conta de uma sexta-feira declarada santa. Sejamos ou não crentes, esta é uma ocasião em que nos sentimos parte de uma comunidade, mesmo se esta é hoje profundamente fragmentada – pela língua, pela cor da pele, pela religião… Se já não faz sentido o salazarento rifão de «Português logo católico», é ainda uma mensagem religiosa que nos (re)liga nestes dias; uma mensagem tão mais valiosa quanto mais aberta, transversal e moderna se revelar. A Última Ceia, a morte de Jesus e a sua Ressurreição, acontecimentos remotos celebrados a cada ano, eles mesmos sobrepostos a outros acontecimentos, estes ainda mais remotos, como a saída do Egipto das tribos de Israel: palimpsesto de memórias historicamente incertas e no entanto tão densas de significado. Nada ilustra melhor a estranha vida da memória como património coletivo que o entrelaçar de diferentes temporalidades; a tensão entre o esquecimento e a persistência do acontecimento; a recriação noutros lugares dos lugares míticos evocados pela memória. Tudo isso tivemos, como temos todos os anos, na quadra que atravessámos.
Enquanto figura histórica, pouco sabemos de Jesus. Isto já foi dito e sublinhado inúmeras vezes, por exemplo por E. P. Sanders em «A Verdadeira História de Jesus». Jesus, ele próprio nada escreveu que tenha chegado até nós, e os Evangelhos são coisa bem diferente de um registo histórico. No entanto – e essa é a magia dessa memória que constantemente nos alimenta e nós próprios alimentamos – em torno da vida de Jesus escreveram-se milhares de páginas e filmaram-se centenas de filmes. De algum modo, a vida e o exemplo de Jesus surgem como um universo complexo mas aberto a inúmeras possibilidades ou, se preferirem, a variadas narrativas. Desde a evocação nostálgica de um cristianismo primitivo à promessa redentora de uma igreja ecuménica; desde a matriz humanista da mensagem cristã à continuidade das injustiças da tradição abraâmica, que de resto boa parte da Igreja estima e preserva. A mensagem de Jesus tem a virtude de se moldar e ajustar a variadas interpretações e é por isso que solenemente me irrita a sua simplificação, tanto quando a reivindicação da «única e legítima interpretação» que demasiadas vezes escutamos.
É aqui que reoriento a escrita para a literatura, e neste caso concreto também para o cinema, assim cumprindo o «caderno de encargos» que a mim mesmo impus. É que a propósito das interpretações menos ortodoxas de Jesus ocorrem-me duas obras bem diferentes, mas que além da mesma base têm uma virtude comum: olhadas com desconfiança por abnegados ortodoxos obrigam-nos a nós a pensar «fora da caixa». Dizendo de outra forma, interessam-me as visões de um Jesus liberto das amarras de uma Igreja que dele se apropriou e proclama seu. Pedindo desculpa pela imprecisa comparação, é um pouco como o que Agostinho da Silva dizia a propósito do brasileiro: que era um português à solta. Imaginem a força e o poder de um Jesus à solta, com o lado rebelde da sua mensagem disponível para os que querem mudar o mundo e não aprisionado por aqueles que nada mais fazem senão trocar o que aqui podemos fazer por um céu já feito, que nos aguarda na sua perfeição, promessa que nos embriaga, constrange e garante inação. É o receio de um Jesus à solta que sempre se manifesta quando alguém nos mostra dele uma face diferente, obrigando-nos a olhá-lo de um ângulo a que não estamos habituados.
Um exemplo desse exercício de mostrar Jesus sob outra luz é-nos oferecido por Kazantzákis num livro de 1951, «A Última Tentação de Cristo». Claro que foi preciso esperar pelo filme de Martin Scorsese, lançado em 1988, para que a polémica extravasasse os círculos restritos da ortodoxia local. As letras, mesmo se vindas de um autor tao reputado como o grego Kazantzákis, não conseguem colocar-se ao nível de um filme de grande produção, disponível em milhares de salas e dispensando a trabalheira de ler duas centenas de páginas. Pessoalmente acho este livro bem pior que outros do mesmo autor – «Liberdade ou morte» e «Zorba, o grego» agradam-me bem mais – mas não é isso que aqui importa. Importa dizer, isso sim, que Kazantzákis não levou a bem as críticas das luminárias conservadoras, desejando-lhe que um dia pudessem ter a consciência tão clara quanto ele e que conseguissem alcançar a elevação moral e religiosa que ele revelara – e eu acho que é verdade: o livro é profundamente religioso. A Igreja Ortodoxa grega, por via das coisas, acabou excomungando o escritor, mostrando dessa forma a convicção inabalável que era a eles, clérigos encartados, que pertencia a última palavra sobre Cristo, mais ainda estando em causa algo tão delicado como «tentações». Foi, porém, com o filme que a polémica ganhou outros contornos. O caso mais grave ocorreu em Paris, no teatro Saint Michel, e incluiu coquetel Molotov, um incêndio e mais de uma dezena de feridos. Não, neste caso não foram os perigosos barbudos do islão mas fundamentalistas do mesmo jaez e com a mesmíssima cartilha: atacar, matar, destruir tudo o que se oponha à «visão certa e ajustada», isto é, ao modo como a eles próprios veem, acertam e ajustam a mensagem divina. Mensagem velha de séculos, já se sabe. Com barbas, pode até dizer, se mais não for por ser esse um apêndice indispensável a qualquer profeta que se preze. Por outro lado, é também verdade que as boas mensagens não envelhecem nem o tempo as mata. É por isso que ainda hoje celebramos acontecimentos tão distantes no tempo. Pena é que em demasiadas ocasiões se prefira a festa sem compromisso às mensagens que fazem pensar.

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