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A REVOLUÇÃO DE ABRIL E A PEDAGOGIA PARA A LIBERDADE

REGINA SARDOEIRA
25 de Abril de 2017, feriado nacional. Diz-se que é o Dia da Liberdade, porque há 43 anos, um golpe de Estado, militar e também apoiado por forças progressistas, deu ao povo português direitos fundamentais, cerceados, durante 48 anos, num regime ditatorial. 
Direitos importantes entre os quais sobressaiu, imediatamente, a possibilidade de sair para a rua, agitar bandeiras, gritar slogans, numa alegria contagiante a que quase ninguém pôde ficar imune. 
Soltaram-se os corpos e as vozes, juntaram-se multidões, ouviram-se músicas vigorosas que logo se tornaram o hino da revolução. As flores, vermelhas e rubras, (os cravos de Abril) foram espalhadas, num gesto feliz, erguidas nos canos das espingardas, ostentadas com orgulho nas lapelas. Parecia que, doravante, darem todos as mãos e sorrir, oferecer flores e cantar seriam as atitudes futuras de um povo, normalmente e até então, cinzento e soturno. Parecia que nenhuma tempestade, cósmica ou social, teria poderes para abalar o brilho solar daquele dia, animado pelas cores viçosas da Primavera. Parecia que o som das vozes que anunciaram, naquela madrugada, o fim de um ciclo e o início de uma nova era seria, doravante, o guia para uma outra maneira de ser. 
Hoje, podemos dizer às novas gerações que, sem esse acontecimento, ocorrido muito antes de eles nascerem, não teriam liberdades que eles consideram normais e adquiridas na hora de nascer. Mas creio que eles não compreendem inteiramente esta notícia que lhes damos. 
Como entender, de facto, que sair para a rua, em grupo, poderia ser punido no antigo regime? Que escrever e publicar só era possível (se fosse) depois de submetido ao crivo da censura? Que certos ideais e vinculações ideológicas, quando manifestados, levariam os seus autores à prisão? Que, nessas prisões, se praticava a tortura, física e psicológica, para obrigar os presos, por causa das convicções, a confessarem “crimes” ou a denunciaram “cúmplices”? Que existia uma guerra injusta em territórios de África que martirizavam povos, de um lado e do outro, uma guerra alimentada, entre outras razões, pelo desejo ganancioso de um império obsoleto? 
Pode escrever-se de muitos modos acerca da Revolução do 25 de Abril e, em 43 anos, decerto, quase tudo foi dito. Porém, o que me parece urgente é a acção pedagógica sobre crianças e jovens, não somente pelas escassas páginas dos livros de História ou pela evocação da efeméride, uns dias antes do feriado nacional, mas na reformulação de um sistema de ensino dirigido para a prática, na adopção de uma cidadania activa capaz de restabelecer a coesão e a identidade sociais. 
Os valores de Abril traziam, como corolário absoluto, a liberdade. Porém, a liberdade só pode realmente exercer-se num quadro efectivo de responsabilidade e não pode confundir-se com libertinagem. Hoje, somos livres de realizar acções que estiveram interditas durante 48 anos e que a designada Revolução dos Cravos legitimou. Mas a cidadania exige, cada vez mais, cidadãos conscientes e capazes de contribuírem de forma lúcida para a construção de um mundo mais justo. 
É verdade que há 43 anos, um golpe militar abriu caminho a um novo tempo e a democracia, assente numa Constituição redigida e votada por deputados eleitos pelo povo, tornou-se o modo legítimo de escolher os governantes do país. Mas não basta eleger e a seguir cruzar os braços, deixando para “eles” a tarefa de resolução dos problemas colectivos. É necessário exercer a vigilância sobre todos esses que nos representam nos diversos órgãos governativos. E, antes de tudo, é necessário aprender a fazê -lo. 
Se os adultos continuam afastados dessa tarefa, outorgada no dealbar da democracia a todas as pessoas, como poderão as crianças e os jovens preparar-se para a sua própria acção , quando chegarem à idade certa? 
Muito mais do que ostentar o cravo vermelho na lapela e fazer discursos encomiásticos, rebatendo os mesmos slogans de sempre, desde há 43 anos, é importante olhar as crianças e os jovens, alienados numa falsa noção de liberdade e entretidos em ocupações falazes, e conduzi-los à responsabilidade a que qualquer decisão livre obriga.

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