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O PREÇO DA INSULARIDADE NO PARAÍSO

JOANA BENZINHO
Um dia ao chegar à Ilha de Canhabaque chamou-me a atenção uma mulher idosa sentada na margem a olhar o horizonte. Passámos parte do dia naquela ilha e, no regresso ao barco, lá estava a mesma senhora que chorava numa lamuria-murmúrio, quase com medo de incomodar a algazarra daquela natureza farta. Quando nos aproximámos disse em tom baixo que esperava há dois dias a passagem de uma piroga que a transportasse até à ilha de Bubaque, onde o seu filho tinha perdido a vida e seria enterrado. Levámo-la com o coração apertado por assistir e comungar de tanta impotência . Saiu do barco com dificuldade e um obrigada envergonhado e fiquei a pensar na dor que seria para aquela mulher se não tivéssemos passado ali, naquele dia, e não lhe fosse permitido acompanhar o filho até à última morada. Isto passou-se comigo mas tenho os ouvidos e a memória cheios de histórias menos felizes resultantes da falta de transportes entre as ilhas e entre estas e a Guiné-Bissau continental. Mulheres grávidas que morrem ou perdem os bebés em busca de uma piroga que as leve até à ilha ou povoação continental com o hospital mais próximo, pessoas que esperam e desesperam em agonia por uma piroga ou barco, com doenças ou fracturas múltiplas, jovens que não estudam para além do ensino básico existente na sua ilha, por não terem um barquinho que os leve até à escola mais próxima. Mas há também os que morrem na travessia em barcos quase de papel, sem condições de segurança e sempre em espaços sobrelotados para maximizar lucros privados com passageiros em claro estado de necessidade. Em 2012, estava com um grupo de voluntários da ONG Afectos com Letras no Hospital Nacional Simão Mendes, prestes a dar inicio a mais um Natal dos Hospitais quando nos chega a noticia de um naufrágio ao largo de Bissau de um barco carregado de gente proveniente de Bolama. A festa foi cancelada e todos os esforços se uniram para receber feridos e salvar vidas. O choque foi grande quando chegou a primeira carrinha com corpos de crianças, mulheres e homens já cadáveres. O dia foi muito duro, muito longo e de má memória para a história dos transportes marítimos guineenses, para quem perdeu os seus e para nós, que ainda hoje relembramos os tantos que vimos chegar sem vida e os outros, felizmente em número superior, que ajudámos a cuidar. 
Mais recentemente, também a ilha de Canhabaque viu um naufrágio o ceifar a vida a vários dos seus.
O Arquipélago dos Bijagós, com mais de 80 ilhas conta com cerca de 20 delas habitadas na sua maioria pelos Bijagós – marinheiros de excelência que se dedicam também à agricultura. Estas ilhas que salpicam a costa da África Ocidental com palmais e bancos de areia vivem muito marcadamente os efeitos da insularidade. Os positivos (a instabilidade continental raramente os incomoda) mas também os negativos, como aqueles que acabo de descrever. E são precisamente esses que irão agora ser minorados com a recente chegada de barcos espanhóis à Guiné e que vão fazer a ligação entre Bissau e as ilhas e também entre ilhas. Além da proclamada mais valia para o turismo, é esta uma oportunidade para assegurar à população guineense alguns dos direitos mais básicos e que por vezes lhes passam completamente à margem da sua ilha. O direito à saúde, o direito à educação e o direito a uma vida com o mínimo de dignidade.

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