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FÁTIMA : ARTE E VIDA EM DESAFIO

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
Fátima, o último filme de João Canijo, estreou no passado dia 27 de abril. Multiplicaram-se as entrevistas ao realizador e às atrizes, os comentários, as reportagens televisivas e as críticas em diversos jornais. Sobre o percurso cinematográfico de João Canijo, são incontornáveis as publicações do jovem especialista e investigador Daniel Ribas que publicou, no Público (27/4/2017) a propósito de Fátima, um magnífico texto intitulado “A fé de João Canijo num cinema do real”.
Fui vê-lo e pensei em vocês. Ofereço-vos a minha visão que, aliás, não está, de modo nenhum, separada da admiração que sinto pelo percurso cinematográfico do realizador e pelo percurso artístico das atrizes que compõem o elenco.
Fátima é o resultado de um laboratório criativo (como também o já tinha feito em Sangue do meu Sangue, em 2011) que o realizador partilha com as atrizes Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Vera Barreto, Teresa Madruga, Ana Bustorff, Teresa Tavares, Alexandra Rosa, Íris Macedo, Sara Norte e Márcia Breia.
Estamos perante uma caminhada, uma peregrinação cinematográfica entre Vinhais e Fátima. Tal como Daniel Ribas refere, “o filme decorre nesse percurso, terminando no santuário, num 13 de Maio real, em que as actrizes acabam o seu duplo périplo: o de encenar e produzir um filme, mas também o de fazerem uma “peregrinação” imposta”.

Fátima são onze mulheres, onze olhares sobre um mesmo caminho (ou talvez sobre mais do que um caminho…), onze maneiras diferentes de aguentar a dor, o desencanto, a frustração e o desafio. Onze vozes que se cruzam, constantemente, mesmo quando estão em silêncio. Onze vozes num percurso de confissões, medos, recusas, dores, partilhas, desconfianças, interrogações e ameaças de desistência. É um percurso de onze mulheres: nove caminhantes e duas que orientam a carrinha de apoio. Protagonizam uma luta constante entre a resistência do corpo, a valorização dos limites físicos e visão implacavelmente mercantilista de alguém que faz das peregrinações uma forma de ganhar a vida.
A carrinha de apoio é apenas mais um obstáculo a transpor: uma máscara que ensombra tantas vezes o caminho. A Ti Isaura é a exploradora, a castigadora, a sovina, a que não cumpre o prometido, uma espécie de antítese do percurso solidário. Ela é a mulher que recusa as garrafas de água e os duches para castigar os atrasos e que fecha o frigorífico a cadeado: é a gestora dos tempos e dos espaços exíguos.
Fátima é, ao mesmo tempo, a construção e a desconstrução de um percurso em grupo. Ao longo do percurso, os motivos serão díspares (a narrativa fílmica não os explora), o desafio é o mesmo e, desde as primeiras sequências do filme, a noção de grupo torna-se uma necessidade vital. As nove mulheres vestem um colete de segurança identificativo do grupo. Uma delas – a professora Isabel – sem colete, com dois sticks, a um ritmo estranhamente certo, muito definido e teimosamente isolado – é a quebra de um conjunto que se quer unido: não canta, não reza, quase não fala, procura outras faixas do mesmo caminho. É como que um constante mistério, uma interrogação e uma contradição – reage com indiferença à solidariedade após a sua queda, recusa as regras na parte final do percurso mas compreende os arrependimentos de Fátima em relação à escola. Apesar de Isabel, o grupo constrói-se na determinação da líder Ana Maria, uma mulher de energia inesgotável, que puxa pelas outras e toma as decisões urgentes, zela pelo bem de todas, apela à união, à espiritualidade e à meditação. Tenta de tudo para conseguir um ambiente de peregrinação, procurando, nas diferenças de cada uma, a construção do coletivo.
Fátima é a representação cinematográfica de uma intensa polifonia: Ana Maria, a construtora dessa mesma polifonia. A caminhada e os momentos de descanso são cruzamentos de ideias e de vontades mas são também cruzamentos de sons, de vozes, de espaços paralelos, de enquadramentos assimétricos e simultâneos, como os que já encontrámos em Sangue do Meu Sangue.
Fátima é a multiplicidade dos espaços. É um longo e intenso travelling de acompanhamento, um longo e intenso conjunto de travellings que definem o contraste entre o movimento ritmado e a imensidão do espaço de reflexão dos montes, vales, clareiras, olivais, pinhais e pequenas aldeias e os espaços conflituosos e exíguos da roulotte e da carrinha.
O contraste dos espaços conduz a um outro contraste: o das canções e o das dores. Projeta-se o embalar do terço rezado, das canções religiosas e das canções regionais substituídas pela urgente e inesperada Grândola Vila Morena, proposta por Fátima, que faz da peregrinação o símbolo de uma procura e de uma libertação na luta contras as Ti Isauras do percurso. Projetam-se os momentos de boa disposição, os comentários cómicos, os inesperados alívios de necessidades fisiológicas e até, a maravilha das maravilhas encontrada numa inesperada casa de banho “normal”, consentida numa das aldeias. No espaço exíguo da carrinha e dos centros de apoio aos peregrinos, perpassa o momento das dores, das bolhas e das lesões musculares. São os espaços do desafio máximo, da luta contra as limitações do corpo e a nudez total das mulheres na procura do alívio de um banho imediatamente impedido pela temperatura escaldante de um chuveiro traiçoeiro.
Mas Fátima é, sobretudo, a peregrinação do olhar de João Canijo. É a peregrinação de uma câmara que acompanha passos, suspiros e gemidos de dor. Que está tão perto que mostra olhares, lágrimas e respirações ofegantes. Que acompanha as mulheres na estrada mas que também as acompanha do lado de dentro dos rails em pausas urgentes. É a câmara que nos dá a serenidade, a ambiguidade, a dureza e o sofrimento dos rostos: projeta o rosto de Ana Maria (Rita Blanco), um rosto de vontade, energia, serenidade e determinação – como ela tivesse alcançado o mundo e a dor de todas elas – encostada a um muro (que não é de lamentações), no Santuário de Fátima. É a câmara que se preenche com o rosto de Céu (Anabela Moreira). E mostra-nos um rosto imenso, que ocupa todo o campo, um rosto de luta e de desejo, de cansaço e de reconstrução, numa lágrima teimosa, intensa e definida.
É uma câmara que consente uma outra visão, uma outra câmara: a do telemóvel de Céu que filma as companheiras do grupo e as mulheres dos outros grupos. É uma câmara indiscreta hitchcockiana que nos dá a visão subjetiva de Isaura criticando o pentear de Céu. É uma câmara que, em segredo, na polifonia dos espaços, dá-nos o lado escondido de Ana Maria que chora silenciosamente e que define as forças externas que se desvanecem no silêncio e no escuro: os dois lados de uma lutadora.
É uma câmara do real, a câmara da carga documental de uma Fátima social e religiosa. Escolhe dar um protagonismo visual, imenso e aterrador, à estupidez dos camiões e à intensidade da mais terrível insegurança entre rails, cruzamentos e vias rápidas. Que nos mostra o protagonismo de carros e camiões que avançam engolindo os pequenos seres caminhantes, que dominam a exiguidade de estradas estreitas num turbilhão de buzinas e motores que abafam as vozes dos peregrinos. É uma câmara que alerta para um problema urgente acerca da valorização dos caminhos tradicionais, longe dos perigos das estradas, caminhos estranhamente recusados pelos carros de apoio, caminhos que acabariam com os perigos das mortes por atropelamento. É a Fátima do real, a câmara do santuário, das vozes e das multidões. Dá-nos o sacrifício das pessoas no corredor dos que terminam o percurso de joelhos. Uma câmara paciente que, num plano longo, nos faz sentir o tempo do sacrifício como também já sentimos o tempo da chuva, do cansaço e da quase desistência.
A câmara de João Canijo nunca abandonou as mulheres, mesmo no fim, à noite, durante as cerimónias: testemunhou a reorganização do grupo, o fim de um percurso e a polifonia de um terço.
Fátima é a câmara da sequência final, do plano imenso e intenso das velas, no escuro. Velas múltiplas, todas no mesmo espaço, no mesmo plano. Representam o fim de todas as peregrinações. Marcam um espaço e o tempo de um plano. Tornam-se únicas.
Fátima é, afinal, um desafio: um desafio cinematográfico, o fruto de um diálogo e de um processo criativo entre um realizador e as suas atrizes. Juntos refletiram sobre os caminhos e os atalhos da vida e do cinema.

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