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ENCONTRO COM A POESIA

ANABELA BORGES
Ser POETA é?
Pediram-me para ter um “encontro com a poesia”.
Ali estávamos nós reunidos, eu e um grupo de jovens estudantes, para procurarmos ter esse encontro com a poesia.
Mas para nos encontrarmos com a algo ou com alguém, precisamos, primeiramente, de saber onde está.
Onde estará a poesia?…
Onde é que costumam encontrá-la, se é que a encontram?
Fiz a mesma pergunta aos meus alunos do 7.º ano. Eis algumas das respostas:
… num só mundo, em que o TEMPO não é problema, e em cada acção existe um forte SENTIMENTO.
… está em todos os LUGARES, com todos os sentimentos.
Ora, nestas breves impressões sobre o que poderá ser a poesia e onde encontrá-la, os alunos destacaram essencialmente três aspectos: tempo, espaço e sentimento. E referem-nos como aspectos abrangentes ao universo poético.
Também António Gedeão refere “Todo o tempo é de poesia. // Desde a arrumação ao caos / à confusão da harmonia”*.
Ora, seguindo esta linha de pensamento, poderemos dizer que a poesia não tem tempo (pode pertencer a qualquer tempo); que qualquer espaço / lugar pode ser cenário para a poesia; e que qualquer sentimento pode ser abordado no texto poético.
Na verdade, no que diz respeito ao sentimento, esta conclusão (de que qualquer sentimento pode ser abordado no texto poético) não foi prontamente retirada pelos alunos. Ao iniciar as actividades de estudo do texto poético, comecei por colocar-lhes algumas questões simples sobre o mundo que nos rodeia, desde natureza, pessoas, objectos, sentimentos. Desde logo, a sua maior dificuldade foi associar a poesia a sentimentos e aspectos negativos da vida do ser humano, como “dor”, “tristeza”, “choro”, “morte”. Inicialmente, os alunos responderam “não” a estas situações. Ou seja, quando as perguntas que lhes fiz referiam situações de instabilidade, confusão, mal-estar, sofrimento, os alunos diziam que não eram associadas à poesia.
Já por isso, Eugénio de Andrade dizia que “Toda a poesia é luminosa, até / a mais obscura”.**
Por que razão os alunos associavam a poesia apenas a “coisas boas”?
Há uma ideia pré-feita de que a poesia é risonha e harmoniosa; que enaltece o sonho, a magia, os passarinhos e as borboletas; que realça as coisas boas e belas da vida.
Foi com este pressuposto que, de seguida, lhes coloquei à disposição diversos poemas em áudio e também algumas canções para eles ouvirem, e as suas respostas mudaram radicalmente.
Ora aí está. As coisas belas da vida são também tocadas pelo sofrimento e por circunstâncias menos harmoniosas.
De pequenino…
As cantilenas e outros textos da tradição oral transmitem ensinamentos, exercendo uma importantíssima função social. É fundamental, por isso, cultivar, desde muito cedo, o gosto pela língua, já que sem memória colectiva não há conhecimento.
A poesia que nos é transmitida desde a mais tenra infância – das rimas, das cantigas, da sonoridade da palavra – marca-nos para sempre. Se recebemos elementos poéticos na infância, estamos, certamente, preparados para ler e ouvir ler poesia; alguns estarão também preparados para escrever poesia.
Quando acabamos de ler / ouvir um poema, o encontro com a palavra não acaba ali. Há uma vibração que fica, como quando ouvimos música. Isso faz da poesia um texto especial, solto de convenções.
Uma vez, num “encontro” em que participei, Fernando Dacosta referiu que “a poesia é mais transcendente porque tem a ver com inquietação – somos um povo de inquietude. Não somos trágicos, somos nostálgicos. Somos muito ligados ao invisível, ao mistério, à morte”. Somos um povo de contadores de histórias, de cronistas e poetas notáveis. Somos muito vocacionados para a imaginação e a memória, “ingredientes” da criatividade.  
Quando eu era pequenina, a minha mãe era costureira, e cantava enquanto costurava; dizia pequenas rimas como aquela da criada “lá decima é feita de papelão”. Isto ficou para sempre gravado na minha memória e dos meus irmãos.
Rapidamente, os alunos começaram a lembrar pequenos poemas, lengalengas, cantigas, fábulas em verso, em que poderia estar presente qualquer sentimento, situação ou emoção, como é o caso meramente exemplificativo de: “Joaninha, voa, voa / Que o teu pai está em Lisboa”; ou de “Fui ao Porto / A cavalo num burro morto”.
Rapidamente, verificaram que tudo pode contribuir para a “arrumação” do texto poético.
A poesia está em tudo e tudo está na poesia.
No cultivar o gosto pela poesia, devemos ter em linha de consideração, antes de mais, a poesia pela poesia, começando do mais simples para o mais complexo. É desejável que o contacto dos alunos com a poesia seja continuado, regular, provocado e variado, não devendo o professor deixar-se intimidar com as supostas questões de dificuldade, antes devendo valorizar a dinâmica do imaginário. Como ouvi, uma vez, dizer ao poeta Fernando Pinto do Amaral “a poesia não tem relógios nem livros de ponto”.
A poesia surge, na sua essência, como forma de pensamento, que se traduz em formas de sentir; uma necessidade humana de expressão fundamental com um forte contributo civilizacional. É, no fundo, um legado.
Assim, também Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) diz “Sou um guardador de rebanhos. / O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações”.***
Se analisarmos o valor intrínseco da poesia, encontramos os diferentes valores que a compõem, desde o fónico-rítmico, o métrico, o estilístico, o técnico-compositivo e o semântico-pragmático.  
A poesia está recheada de significações, imagens e recursos expressivos, representando a realidade, desenvolvendo o sentido estético, assim como a criatividade, e ajudando na promoção do desenvolvimento pessoal e social.
Então, o que é ser POETA?
E os alunos disseram:
Ser Poeta é…
… ser criador de sentimentos.
… ser sonhador, navegar num mundo de felicidade e dor.
… alguém que escreve observando qualquer objecto ou lugar. O POETA VÊ POESIA EM TUDO!
Por fim, alguém ainda acrescentou que a poesia é…
… um sonho em bruto derramado numa folha de papel.
Não é fantástico?
*António Gedeão, In: “Fala do homem nascido”.
** Eugénio de Andrade, In Os Sulcos da Sede.
*** Fernando Pessoa, “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro.

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