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O MILAGRE DA CRISTANDADE ESCONDIDA OU A LAICIDADE HIPÓCRITA

LUÍSA VAZ
Desde o inicio dos tempos que quer seja para granjear Poder, espoliar povos ou domina-los, a Religião tem sido utilizada de forma indiscriminada. Ainda hoje, em pleno século XXI, em vez de a Religião ser usada somente na prática diária ou regular dos seus crentes, ela é antes usada como forma de instrumentalização das massas.
O povo português, aquele que um dia foi pioneiro nas Descobertas e que teve a liderá-lo Reis visionários no seu tempo bem como navegadores e comerciantes exímios que levaram o nome de Portugal além-fronteiras que conseguiram deixar uma marca que tem perdurado através dos tempos é lembrado como um povo simpático e amigo, tolerante e passível de miscigenação com os vários povos com que se cruza. É portanto um povo que muitos guardam na memória devido aos seus feitos e por consequência e riqueza da sua História, um país que muitos visitam ou planeiam visitar um dia.
Portugal é também um país de profundas contradições ideológicas e sociais. Portugal é hoje vítima da separação que foi inscrita na Constituição da Republica portuguesa aquando da sua redacção inicial e que nenhuma das suas revisões apagou ou sequer minimizou.
Portugal é, na boca dos seus políticos, um país que almeja reduzir se não mesmo sonegar as desigualdades ao passo que é dos países que mais as fomenta e incentiva. As contradições poderiam e deveriam ser algo com que pudéssemos crescer mas transformou-se no grilho da hipocrisia e torna-se por vezes difícil ser um país pelo qual queiramos lutar e que queiramos ou consigamos defender.
Veja-se o caso da visita Papal agendada para dia 13 de Maio. O Santuário de Fátima tem sido repetidamente visitado pelos vários Papas sendo agora a vez do Papa Francisco, desta feita com o propósito de comemorar o Centenário das Aparições aos três pastorinhos. O Papa Francisco estará no Santuário a 13 de Maio que no ano de 2017 calha a um sábado.
Ora se o dia calha a um sábado, porque decide o actual Governo em funções declarar tolerância de ponto no dia 12? Acaso os funcionários públicos trabalham ao sábado? E os privados? No sector privado não há crentes? Não há quem queira ir a Fátima?
Mesmo que os funcionários públicos insulares queiram participar deste momento, no máximo conseguem estar no Continente pela hora do almoço não se entendendo, se não numa óptica totalmente populista e eleitoralista, que o Estado possa parar a uma sexta-feira. Mais se questiona: se o propósito da tolerância de ponto é que os funcionários públicos cristãos possam ver o Papa no sábado, como se prova que é para isso que se utiliza a tolerância de ponto? E os agnósticos e ateus, como ficam nesta fotografia mal tirada?
A tolerância de ponto é uma figura da qual, por norma, beneficiam os funcionários públicos e está consagrada na Lei. Mas não são os privados que sustentam a máquina do Estado? Não podem também eles usufruir desta figura, ou não devem, pelo menos moralmente?
Sendo Portugal um país laico, ou pelo menos é isso que está inscrito na sua Constituição da Republica, não deveria então não celebrar de forma tão aberta a Religião? Não deveria Portugal dar a todos a oportunidade de seguir o seu próprio credo sem ter um definido? Sendo que Portugal subscreve a Agenda Episcopal, como pode afirmar ser laico? Mais de metade do calendário de feriados português é católico mas no entanto o Estado é laico. Se quem mais beneficia deste calendário religioso são os funcionários públicos, ou seja, funcionários do Estado, como pode este afirmar a sua laicidade? E se é laico, como vêem os agnósticos e os ateus ou praticantes de outras religiões, respeitada a sua escolha? Não deveríamos também então celebrar o Ramadão ou o Hanukkah?
Esta laicidade é estranha e a única personagem que me lembro que se tenha declarado laica em Portugal foi o falecido Mário Soares e foi provavelmente a essa opção que se foi buscar o termo inscrito na Constituição da Republica.
Estas discrepâncias aumentam as clivagens entre os cidadãos e não são nada saudáveis mas se os Estados se assumissem como o que realmente são em vez de tentarem andar “no fio da navalha” e tentarem agradar a toda a gente sem querer ferir susceptibilidades talvez certas lutas não fossem tão difíceis de serem ganhas como a do terrorismo, por exemplo. Os Estados cristãos, que praticam o Cristianismo e que no seu calendário e nas suas práticas, sazonais ou diárias, são cristãos, não deveriam ter qualquer problema em assumi-lo e assim já todos sabíamos com o que contávamos.
O que espanta, mais uma vez e a quem ainda espanta, é a posição do Bloco de Esquerda que sendo um aglomerado que sempre desprezou a Religião e se considera ateu – neste momento já não sabemos muito bem se podemos acreditar no que este aglomerado diz que se considera – não reage a esta polemica – é mais uma a que não reage em nome da sua manutenção no Poder. O Bloco certamente nada teria contra a tolerância de ponto mas de certo muito teria contra as razões que o justificariam.
Ora como esta aglomeração aprendeu a não se queixar de nada desde que se vinculou a este governo com certeza também vai deixar este atentado à sua ideologia e ao que defende passar em claro. É mais uma para juntar a tantas desde que já deixou passar.
Estamos portanto num dos momentos mais hipócritas da nossa vida política, social e económica se quisermos em que tudo aquilo que até aqui foi tido como certo e como garante hoje é considerado pós-verdade e em que andamos a navegar” às cegas” sem rumo e tomando decisões “à la minute” com a mesma veleidade com que antigamente se ia aquelas cabines nos supermercados onde tirávamos fotografias.
É neste país em que estamos a viver actualmente. O país onde claramente há dois mundos – o público e o privado – onde há regras distintas para ambos e onde uns só têm direitos e benefícios e os outros, obrigações.
No entanto não há crispação. Não há críticas abertas. Não há discursos inflamados. Não há exig

ências. Estranho país este onde quando tudo está mal, todos nos fazem crer que tudo está bem, uma maravilha aliás.

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