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MINDFULNESS E O STRESS DA VIDA QUOTIDIANA

REGINA SARDOEIRA
Peaceful Warrior ou O Caminho do Guerreiro Pacífico foi, para mim, naquele tempo, um filme-surpresa. 
Lembro-me de chegar ao Clube de vídeo e procurar afanosamente uma história que pudesse satisfazer a minha ânsia de significado. Encontrei-o, por fim, numa capa, com a imagem de um jovem pendurado de umas argolas de ginástica, com a cabeça para baixo, de ar sereno e contido, como se o instante o houvesse absorvido por inteiro. Com muito pouca informação sobre a história, trouxe o filme comigo, num impulso. 
Depois de vê -lo, partilhei-o, nos dias seguintes, com os meus alunos na sala de aula, querendo transmitir-lhes a opção de vida que contempla o aqui e o agora, que permite saborear o instante, esquecendo a luta pela competição e a ambição pelos projectos grandiosos, observar as pequenas coisas que a todo o momento perpassam à nossa volta e descobrir, enfim, que não há momentos vazios ou acontecimentos nulos e tudo pode ser motivo de entusiasmo, dentro e fora de nós.
 
Sei que a filosofia do filme, veiculada por um mestre misterioso – afinal, o mestre interior de cada um, ali personificado num homem idoso que dava pelo nome de Sócrates – atingiu alguns objectivos entre os jovens a quem tentei passá-la ou, pelo menos, captou-lhes o entusiasmo e a atenção nas aulas que demorei em torno do tema. E há umas semanas atrás dei comigo sentada no auditório da Escola Superior de Saúde, no Porto, a participar numa aula aberta, promovida pelo terceiro ano de Medicina Nuclear, cujo tema era “Mindfulness como prática terapêutica” . Curiosamente fui até lá a convite de uma ex-aluna, actualmente minha amiga, que integrou a dinamização do projecto e a quem, no seu tempo, transmiti os valores do Guerreiro Pacífico. 
Quando ela me falou em mindfulness e na sua importância no combate ao stress, na vida quotidiana de cada um e com mais ênfase nas profissões de risco, não pensei nessas horas, já um pouco longínquas, em que, em várias aulas de filosofia, lhe passei, exactamente, o testemunho dessa importância. Na altura, creio que não se utilizava o termo mindfulness para caracterizar o estado de consciência centrado no momento, em toda a sua plenitude, preparado para captar os pequenos /grandes indícios da caminhada que fazemos dia a dia e vale por si só, enquanto caminhada e não pelo resultado, esse estado que nos faz cair e depois levantar, crentes de que a queda não passou de um degrau necessário para a continuação do percurso, e tantas outras técnicas ou treinos capazes de nos restituírem a nós mesmos. E foi, com uma sensação mista de reconhecimento, mas também de abertura à aprendizagem que acompanhei os trabalhos daquela sessão. 
Estive ali, durante uma tarde inteira, revisitando o sistema nervoso, a rede complexa dos neurónios e das sinapses, o papel dos neurotransmissores, a importância inestimável de manter a articulação perfeita entre o corpo e a mente, que ambos supremamente nos constituem. 
Entendi, com novo entendimento, o papel do stress na realização dos desafios para que nos lança a vida quotidiana, o impulso gerador de energia enviado pelas glândulas supra-renais, essa hormona neurotransmissora designada como adrenalina e por si só capaz de nos preparar para enfrentar um perigo ou um medo, e como o sistema nervoso simpático se articula no sentido de dar resposta à necessidade que o corpo e a mente precisam de enfrentar. Este é denominado o stress positivo, ou seja, aquela corrente brusca de força e de entusiasmo que atira o bombeiro para o meio das chamas, o piloto para a resolução de um problema emergente, o mergulhador para as profundezas do mar onde sabe que estará fora do seu elemento natural. Necessitamos deste stress, desta irrupção adrenalínica para não soçobrarmos e, no momento adequado, é importante que nos centremos no objectivo imediato, focados em absoluto, no “aqui e agora” que a circunstância exigir. Porém, logo a seguir, uma outra substância hormonal, a noradrenalina, reporá o organismo no seu equilíbrio e o sistema nervoso parassimpático coadjuvará o simpático na necessária homeostasia. 
O outro stress, o maléfico, que nos atira, descontrolados daqui para ali, em desordem fisiológica e mental, esse deverá ser minorado; e eis aqui a importância das técnicas de mindfulness, em que a meditação, apelando ao regresso de nós a nós mesmos e à circunstância normal e serena do quotidiano, deve servir, e fá-lo efectivamente, de processo de cura. 
Meditação, isso mesmo. Devemos permitir à nossa mente que se aplaque, cinco minutos por dia, sempre que a ansiedade nos invade e o pânico emerge do horizonte. Basta entrarmos em nós mesmos, aprendermos a respirar, inspirando e expirando em ritmo regular, e depois perceber que a ameaça suposta estava já devidamente alienada. 
A técnica de mindfulness permite disciplinar o organismo e a mente, não de um modo extrínseco, mas por recurso à extraordinária perfeição com que somos dotados e se oculta na intimidade mais profunda do nosso eu. Precisamos de ouvi-la, temos necessidade de criar as condições para que tudo aquilo que já somos, e é sábio e fecundo, tenha oportunidade de expressar-se e incrementar o poder das nossas acções quotidianas. 
O nosso organismo é um prodigioso mecanismo natural, cujos componentes se harmonizam de modo perfeito. Infelizmente não nos conhecemos a esse nível. Ignoramos o que, efectivamente, nos torna estes prodigiosos seres em movimento, muito mais capazes do que acreditamos ser. A meditação que o mindfulness preconiza activa essas zonas esquecidas, trá-las à superfície e possibilita que nos maravilhemos com tudo aquilo que já somos e com o muito mais que poderemos vir a ser. 
Às vezes só um acidente, uma grande catástrofe pessoal têm poder para nos levarem a reflectir sobre aquilo que efectivamente somos. 
Dan Miller, o guerreiro pacífico do filme, sonhava ganhar a medalha de oiro nos Jogos Olímpicos e parecia ter tudo para alcançar esses instantes, tidos como preciosos e únicos, da subida ao pódio. Porém uma inquietação profunda tirava-lhe o sono, como se o seu ser interior lhe segredasse uma outra verdade acerca de si mesmo. 

Encontrou o mestre – o seu guia interior – mas não lhe deu ouvidos, por chocarem com o seu quotidiano arrogante e auto-complacente as novas regras de uma nova dimensão de si. Foi preciso ter um acidente terrível que quase lhe roubou a vida, foi necessário aceder à absoluta vulnerabilidade, interiorizando a impossibilidade de atingir o seu sonho de glória, para, no silêncio de si mesmo, apaziguados, enfim, a arrogância e o vício competitivo, ouvir a voz do seu mestre pessoal. Imbuído de si treinou a partir do âmago, ocupou-se do aqui e do agora, do ser todo inteiro a cada momento e, feito milagre para os outros, soube que fizera jus à perfeição que já era. 
Jamais esquecerei o valor daquelas horas passadas no auditório da Escola Superior de Saúde, onde uma jovem do 3° ano de Medicina Nuclear me conduziu, para que despertassem em mim, sob outra designação, mas nem por isso distintas, as sentenças sábias do Guerreiro Pacífico a que, em tempos, também a tinha conduzido. Obrigada, amiga.

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