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SALVADOR SOBRAL E A NOSSA REDENÇÃO

Não sei coisas difíceis 
Nem as faço, nos versos, com palavras. 
Difícil é ser simples e vestir as coisas de tal jeito
Que quem as veja pense que são nuas. 
Ilídio Sardoeira, Poemas, 1952
REGINA SARDOEIRA
Subjectividade universal. Um conceito relativo à estética, à obra de arte, à beleza, aparentemente paradoxal, enquanto conceito, visto considerarmos, numa perspectiva vulgar, ser a subjectividade uma posição individual, própria de um só sujeito, e a universalidade um atributo do que é extensivo a um grande número de pessoas ou mesmo a todas quantas existem no mundo.
Porém, raciocinando nas linhas do pensamento kantiano e explorando a singularidade deste conceito, enquanto fundamento do juízo estético, lograremos entendê -lo, quem sabe senti-lo, e aceder ao cerne daquilo que realmente caracteriza a obra de arte e a distingue dos simulacros. 
Vejamos. Uma multidão assiste a um espectáculo e percebe-se o êxtase da fruição estética no modo como todos se emocionam ou vibram ou sorriem; cada um sente ao seu modo particular – e logo subjectivo, e logo intransmissível – o deleite do instante. E contudo, quando os olhares se cruzam, uma centelha de afinidade, emotiva ou de entendimento, na euforia do instante, cruza o espaço. E cada um sabe, acerca do outro e de todos os outros, que uma corrente inefável e mágica está a envolvê -los como se fossem uma unidade. 
O subjectivo, que ficará para sempre submerso no íntimo de cada um, tornou-se universal, na sintonia da fruição do belo. Quando todos saírem e se olharem, no acidente do encontro fortuito, saberão que partilharam o mesmo espaço /tempo de fulgor inebriante e poderão murmurar em uníssono: ” Foi belo!” 
Se sentirão todos o mesmo? Se os arrebatamentos sensitivos tiveram a mesma frequência? Se todos, sendo questionados, teriam as mesmas exactas palavras para exprimir o sentimento? 
Decerto que não. Cada um sentiu, entendeu, experimentou, saboreou o espectáculo no absoluto segredo de si; mas todos sentiram, entenderam, experimentaram, saborearam, através dele, o uníssono sentimento da beleza. 
Subjectividade universal, portanto. 
Se assim escrevo, hoje, é na exacta medida em que muito li e ouvi acerca da canção “Amar pelos Dois” , escrita e interpretada por Luísa e Salvador Sobral e vencedora, de uma forma senão unânime, pelo menos esmagadora, num festival europeu de canções. 
Creio que poucos acreditaram (mesmo) que este fenómeno pudesse acontecer, nem sequer a autora e o intérprete. Creio que, para muitos, a música, as palavras e o seu intérprete não tinham o poder esfuziante que costuma ocorrer neste tipo de eventos. E não tinham, efectivamente. 
Quando escutei pela primeira vez a melodia, as palavras, e observei a figura, a voz e a atitude do cantor, sabendo que ele havia vencido o festival português da canção, percebi/senti o indizível. Depois fui-o seguindo, tentei conhecê -lo, perceber quem era, enquanto homem e artista, e de onde vinha. 
Há muitos anos que este tipo de espectáculos me é absolutamente estranho por ter começado a perceber que tudo não passa, infelizmente, de um conjunto de encenações espalhafatosas e voltadas unicamente para o consumo e para o brilho pomposo dos palcos e da fama. Mas, desta vez, dispus-me a seguir o Salvador Sobral, soube que para ir à final ele teria que superar uma semifinal e quis observá-lo e ver e sentir o seu impacto, no meio dos outros. 
Por fim, dispus-me a assistir ao festival, ciente de que algo de extremamente invulgar – ou talvez não, como se verá depois – iria acontecer naquela noite. Foi terrível passar tantas horas a ver e a ouvir espectáculos mirabolantes em que todos se excederam em apoteóticas e bizarras extravagâncias. Todos, excepto um. 
Percebi então, como já tinha vislumbrado na semifinal, que o fenómeno absoluto da emoção estética, derramado, não pela música, não pelas palavras, não pela voz, não pela postura do cantor…mas pelo conjunto de todas estas partes de um todo indissociável e inexprimível estava ali, inteiro. E fiquei, estoicamente até ao fim, só para testemunhar, em primeira mão, a subjectividade universal inerente à beleza, de que fala Kant. 
Por que razão, gente de línguas muito diferentes da portuguesa, com ambientes musicais muito diferentes do nosso, com sensibilidades díspares da que nos é apanágio – se é que isso existe – se uniram para dar a Salvador Sobral a vitória numa competição de canções, onde ele foi uma excepção em tudo? 
Não, não me convencem os que opinam que foi por isso mesmo – por ser tão diferente. Nem os que afirmam que venceu a humildade, a simplicidade, a autenticidade. Nem sequer os que reiteram o valor poético e musical do tema. Menos ainda os que elogiam a voz e a postura do intérprete, como condição da vitória . Tudo isso estava lá, presumivelmente, no todo ou na parte, mas isso nada quer dizer quando tais valores são postos a concurso e sujeitos a votações, elas próprias fruto de múltiplos factores. Nada disso significa o que quer que seja, quando o padrão vencedor costuma ser aferido por vozes potentes e encenações extravagantes. 
No momento em que comecei a ver a votação massiva no cantor português, soube que a subjectividade universal, o toque de mágica nos sujeitos todos que escutaram, rendidos, aquele absoluto fenómeno estético, e tiveram a necessidade inapelável de, universalmente, o homenagearem com o voto (que mais não foi que a expressão do sentir e a rendição à beleza e à arte) estava a patentear-se, à frente dos meus olhos. 
Poderia n

ão ter sido o vencedor, bastava um desvio pequeno nas contagens, um erro de avaliação, vindo daqui ou dacolá. Mas tal erro não teve oportunidade de manifestar-se e Salvador Sobral venceu. 

Mas venceu o quê, no sentido individual, propriamente dito? Quase nada, convenhamos. 
Que vai ele fazer com o troféu, com o reconhecimento, com a fama? Que vai ele mudar em si mesmo apenas porque, de um dia para o outro, passou a pertencer a um país, ao mundo? 
Quem o viu e observou, depois da vitória, terá percebido, decerto, que a sua integridade permanece e que, tal como afirmou, espera poder continuar a fazer o que escolheu como caminho de vida. 
Salvador Sobral, com o todo de si, e aquela música, aquelas palavras, aquela voz, etc. representou a quintessência metafísica do fenómeno estético e pôde, sem saber que podia, apelar à subjectividade universal e permitir que a harmonia dos humanos se revelasse. 
Por essa única razão, temos de admitir que o nosso mundo ainda pulsa. E é por causa disto que lhe estou grata e, mesmo sem entenderem o que eu entendo, mas sentindo-o sem conseguirem dizê -lo, todos deverão/deveriam estar-lhe gratos – porque, instrumento de um poder que o ultrapassa, Salvador Sobral redimiu o mundo na noite do dia 13 de Maio de 2017.

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