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A CULTURA COMO INVESTIMENTO

ARTUR COIMBRA
Ciclicamente, por uma razão ou outra mais ou menos plausível, essa ave rara chamada “cultura” vem ao de cima do discurso mediático, bem mais propenso às vicissitudes da política mais ou menos centrada nos governantes e nos partidos políticos.
Nos últimos dias, os media têm dado significativo destaque a questões ligadas ao universo da cultura, em especial da música, por virtude da fantástica conquista do Festival Eurovisão da Canção por esse cantor improvável e em quem poucos acreditavam chamado Salvador Sobral, ainda por cima cantando em português uma canção sem o habitual aparato festivaleiro. É o cantor que tem colocado o dedo na ferida, referindo que seria interessante que, à boleia daquela inesperada conquista da Europa das canções, “o orçamento para a cultura aumentasse”. Um recado para o Governo de António Costa, esperando-se que não caia em saco roto, como é tão normal neste país, em que as coisas habitualmente abrigadas no chapéu da cultura (artes plásticas, cinema, teatro, música, bailado, literatura, exposições, concertos e tantas outras) são tratadas como a última prioridade de qualquer programa político, o que se lamenta em absoluto, porquanto um povo culto é um povo mais activo, mais empreendedor, mais criativo, mais livre.
Basta ver a quantidade de vezes que os jornais televisivos abordam questões culturais. Quase se podem contar com os dedos de uma só mão e, quando acontecem, são relegadas para os minutos finais do telejornal e emitidos muito a contragosto…
É claro que falar-se de cultura é, já de si, um achado, tão menosprezada anda pelos órgãos de comunicação social e pela população em geral, anestesiada por doses cavalares de telenovelas e de futebóis, que não sabe há quanto tempo viu um filme no cinema, que já não se lembra da última peça de teatro a que assistiu, e que nunca mais acaba de ler aquele pequeno livro que começou há mais de um ano.
Mas as estatísticas e o pensamento dos últimos anos vão no sentido de se concluir que a cultura não é, nos nossos dias, algo que funcione apenas como adereço, como coisa supérflua, como desperdício irrecuperável. A cultura é considerada, justamente, um investimento, que movimenta já milhões de euros e que tem retorno, embora mais lento que outras actividades, como é natural. As indústrias culturais na Europa, por exemplo, representam já maior impacto no produto interno bruto que a têxtil ou a indústria automóvel, por mais incrível que possa parecer.
É reconfortante saber que o investimento cultural começa a ser reconhecido, pelas autoridades, pelos agentes culturais e pelos agentes económicos. A cultura tem de constituir uma aposta estratégica, do Estado e das autarquias, porque é aquilo que, a par da educação, pode contribuir para tornar os povos mais livres, mais conscientes, mais evoluídos, mais felizes e mais humanos.
Até porque, ao contrário do que supõem os imensos pretensos e incultos pragmáticos, para quem a cultura não passa de um vastíssimo regabofe despesista e sem pingo de importância, está demonstrado que a cultura tem um forte peso na economia europeia. Em Portugal, o sector contribui com 1,4% do produto interno bruto, sendo o terceiro principal contribuinte para o PIB, a seguir aos produtos alimentares e bebidas. Por isso, deve passar a ser vista como uma prioridade para os governos dos países, e também para os responsáveis municipais. A cultura é para ser apoiada, dinamizada, subsidiada, porque é ela que eleva espiritualmente a humanidade. É a cultura que distingue os homens da animalidade. Os discursos contra a cultura, venham de onde vierem, não passam desse estádio de atraso e desse apego à barbárie…
Em suma, está, então, na hora de os políticos e os fazedores de opinião se consciencializarem da importância fundamental e do peso específico deste importante sector para a economia e para a qualidade de vida dos cidadãos.
E já não é sem tempo.

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