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A TERCEIRA IDADE… OU A OITAVA?

REGINA SARDOEIRA
Hoje decidi escrever sobre a terceira idade. E logo me divirto interiormente porque, para ser exacta, não deverei falar de “velhos” ou “idosos” mas de…crianças entre os 3 e os 6 anos ! 
O critério para aferir os ciclos da vida não será, portanto, o comum, aquele, segundo o qual, só existem três idades – a infância, a juventude e a velhice -, mas outro, muito diferente, que leva em conta inúmeros cambiantes, crises e soluções de crises e novas crises e novas soluções, até um momento, desconhecido e variável, de indivíduo para indivíduo em que o movimento cessa de vez. 
Como as idades são oito – vou levar em conta a classificação do psicólogo Erik Erikson – a terceira idade corresponde, pois, à infância e traduz-se na dialéctica – Iniciativa / Culpa 
Se há alguma coisa que distingue a criança nessa fase é a iniciativa. Especialmente durante as brincadeiras, ela descobre o papel mais significativo para si e representa-o. A criança precisa identificar e projectar o seu papel no mundo.
A rivalidade e os ciúmes também aparecem nessa fase. A criança quer ser tratada como alguém especial e rejeita qualquer deferência da mãe pelos irmãos ou outras pessoas. Se não receber um tratamento relativamente privilegiado, desenvolve a culpa e a ansiedade.
Este sentimento, se não resolvido, reflectir-se-á nas etapas seguintes. Porém, se a criança puder sanar os conflitos, o seu desenvolvimento prosseguirá; e novas crises e novos desafios surgirão, até atingir o topo da tabela – não o fundo, entendamos-nos! – e arribar à oitava idade, a partir, mais ou menos dos 60 anos, em que a dialéctica oscila entre a Integridade e o Desespero
A última idade da vida pode ser uma etapa serena ou cheia de ansiedade. Tudo depende de como foram vividas as idades anteriores. Uma pessoa idosa deve ser capaz de fazer uma avaliação sensata da sua época e da sua vida, onde prevaleça o reconhecimento da realidade e a compreensão do mundo em que vive.
É, pois, acerca desta idade que me propus escrever hoje, não a terceira mas, afinal, a oitava, que pode ser um momento óptimo da vida, caso a pessoa tenha vivido em pleno as etapas anteriores, e consiga olhar para si e para o mundo circundante com optimismo e confiança. 
Mas, se me ocorreu abordar este tema foi na exacta medida em que, ultimamente, me venho confrontando com notícias ou pequenas alusões acerca de pessoas de idade, mais ou menos avançada, que se comportam de um modo tido como impróprio apenas por serem…idosas! 
É o caso de uma senhora de 90 anos que, ao ser convidada para um cruzeiro, vai a uma loja e compra um biquíni vermelho com pintas brancas – muito interessante e adequado ao corpo – mas cuja fotografia, tornada pública pela dona da loja com a anuência da cliente, se torna imediatamente “viral” (reproduzo o adjectivo idiota entre aspas, como vêem, pois o que queria mesmo dizer é que foi extremamente observada e comentada.). Mas porquê? 
É que uma senhora de 90 anos que decide ir à praia de biquíni, ainda por cima vermelho com pintas brancas, é um fenómeno, um caso insólito… As senhoras de 90 anos não devem mostrar assim o corpo, devem tapar-se dos pés à cabeça (ou vice-versa) para não chocarem a pseudo-estética que desfila nas praias deste mundo! E, de preferência, devem ficar em casa, curtindo a solidão e esperando a morte! 
Ou então, aquelas senhoras – também já na oitava idade – que criticam uma conhecida que, segundo elas, esquecida que já não tem 20 anos, continua a vestir-se jovialmente e a, desse modo, caminhar pelas ruas da cidade. Ou ainda, dando um salto vertiginoso, a mulher do presidente francês, também na oitava idade, enquanto ele está no dealbar da sétima, e as reticências acerca das possibilidades de vigor sexual numa relação tão desigual na cronologia. 
Pensei então em mim; e confesso não saber em que idade hei-de situar-me e o que fazer para estar à altura das exigências do mundo que me cerca. 
Quando analiso a sequência do desenvolvimento apresentada por Erikson, ora me situo na quinta idade – Identidade /Confusão de papéis – adolescência, período caracterizado por duvidar de tudo em que acreditava anteriormente, e dos conhecimentos, e das habilidades e mesmo das experiências. Como uma adolescente, preocupo-me com a imagem que passo para os outros, estou em constante conflito entre o que fui até agora e o que serei no futuro, ora, me coloco na sétima idade – Generatividade / Absorção em si mesmo – e desejo enquanto pessoa madura ser produtiva e orientar as novas gerações. E, nesta fase onde, de vez em quando, me situo, se tal não ocorre, sinto-me num processo de estagnação pessoal ligado ao sentimento de não me transcender, de não ter qualquer interferência sobre o futuro: um sentimento de impotência.
Oscilo, pois, entre dois ciclos cronológicos, ambos repletos de energia e de contradição, ambos, afinal, em choque com o que (talvez!) a sociedade espera de mim. E não, decididamente, não encontro, em mim’ a menor vocação para ser (ou vir a ser) idosa! 
Por isso, não compreendo os que criticam ou se admiram com a senhora de 90 anos e o seu biquíni vermelho com pintas brancas, ou os que observam, repugnados, as idosas que se esqueceram que já não têm 20 anos ou os que especulam acerca das relações sexuais do casal presidencial francês. 
Erikson sustenta que há oito idades na vida do homem; eu respeito -o: mas atrevo-me a garantir que há uma série delas, entre essas tais, que o estereótipo que traçou fronteiras entre idades é, sem dúvida, o responsável por tantas amarguras decorrentes do passar do tempo. Sim, é verdade, os anos somam -se e 60 são três vezes 20; sim, o rosto muda, e o corpo e os órgãos; sim, parece que a morte chegará um dia. Mas nenhuma destas verdades exactas pode ser aferidora do que é ou não próprio de quem apresenta vincos no rosto e ainda crê no futuro e em si.

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