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QUANDO O MUNDO NOS MORRE

LUÍS CUNHA
Vivemos no mundo do mesmo modo que o mundo vive em nós, ligados de forma tão entranhada que nenhuma fronteira nos separa, fazendo de sujeito e objeto um só. Não se trata sequer de uma aliança mas antes de uma condição necessária ao Humano; de tal forma necessária e indispensável que fica em nós como uma pele, uma parte do que somos e que só nos dói quando dela somos amputados. Nenhuma situação revela melhor esta nossa fusão com o que está fora de nós senão a situação extrema, e em si mesma impensável, em que o nosso mundo nos morre diante dos olhos. Não, um desgosto só não chega, nem mesmo a morte dos que nos são próximos se assemelha à perda absoluta de que falo. Quando essa perda impensável nos assalta, quando vemos cair, uma a uma, todas as muralhas que nos protegem, descobrimos uma outra dimensão na solidão, já não a experiência banal de estarmos em ninguém que nos apoie ou defenda. Trata-se de algo bem mais radical e profundo: é a solidão absoluta de não sermos ninguém, de nos vermos reduzidos a um suspiro caprichoso num mundo que deixou de o ser.
Quem teve a infelicidade de experimentar uma perda tão excessiva não se consola com as palavras, ainda que muitas vezes se sirva delas como denúncia e aviso. O exemplo mais antigo e mais perfeito que conheço dessa denúncia e aviso pode ler-se no Antigo Testamento, no Livro das Lamentações, onde se dá conta da destruição da cidade de Jerusalém às mãos do rei da Babilónia, Nabucodonosor, em 689 a. C. Não conheço melhor testemunho da perda e do abandono, do desmoronamento de um mundo e da desistência de toda a esperança perante os terríveis desígnios de Deus:
«O inimigo lançou mão de todos os seus tesouros. Ela [Jerusalém] viu os pagãos penetrarem no seu santuário, aqueles de quem havia dito que não entrariam na sua assembleia.
«Geme todo o seu povo à procura de pão. Troca as suas joias por víveres a fim de conservar a vida. Vede, Senhor, e considerai o aviltamento a que cheguei!»
«Jazem pelas ruas as crianças e os velhos. As minhas virgens e os meus jovens tombaram ao fio da espada. Mataste, no dia da Vossa cólera, imolaste sem piedade».
Não vivemos no mundo, o mundo está em nós, somos dele parte, do mesmo modo que ele faz de nós o que somos. Não nos apercebemos deste laço profundo senão quando o perdemos definitivamente. Resta-nos, então, a memória dos dias felizes, uma memória que só agrava o nosso sofrimento: «Nessum dolore Maggiore/che recordarsi del tempo felice/ne la miséria», escreveu Dante. Também Jeremias, a quem são atribuídas as Lamentações, o diz de forma clara:
«Nestes dias de aflição e de vida errante, lembrou-se Jerusalém das delícias dos tempos idos: agora o seu povo caiu nas mãos do inimigo sem que ninguém a viesse socorrer! Olham-na os seus inimigos e zombam da sua devastação».
Inevitável procurar uma razão, algo que explique a perda e possa apaziguar os aflitos, ingénua procura de um consolo que de nada serve quando o nosso mundo nos morre e nos mata. Onde Jerónimo viu a ira divina, justificada pelos «graves pecados de Jerusalém», outros verão infortúnio ou capricho da sorte, provação tão imerecida que no final de tudo talvez nos possamos salvar, descobrindo um caminho em que se abra um novo mundo e nova esperança.
Da Jerusalém destruída por Nabucodonosor separam-nos mais de dois mil anos. Já o mundo perdido de Stefan Zweig está bem mais perto de nós, na verdade tão incomodamente perto que sentimos que uma perda como aquela nos pode tocar a nós um dia. Um mundo inteiro, solidamente estruturado que se perdeu com um breve sopro. Um mundo de muita gente, naturalmente, não apenas de Zweig. Ao seu testemunho, lavrado em palavras tanto quanto no ato final com que pôs termo à vida, juntam-se outros testemunhos dessa perda. Mal começara o novo século e bem no centro da Europa, lá onde pulsava o seu coração, lugar de cruzamento de promessas e inquietações, tudo começa a desmoronar-se. Em breve, a força da inteligência e criatividade de homens como Sigmund Freud, Walter Benjamin, Robert Musil, Thomas Mann ou Stefan Zweig, havia de ceder à força das armas. Viena, como a Jerusalém da antiguidade, morria e levava com ela aqueles que eram parte de si, peões perdidos numa voragem de destruição que varreu também outras cidades e aldeias, não poupando novos nem velhos. Como Jerónimo, algumas das vítimas puderam servir-se das palavras para tentar dizer o indizível e também, bom era que não o esquecêssemos, para que aquela tragédia servisse de aviso a gerações futuras.
Nem todos os órfãos dessa Europa em guerra tiveram o trágico destino de Stefan Zweig, mas julgo poder dizer que todos tiveram a indesejável experiência de assistir à morte do seu mundo. Todos eles, certamente, procuraram explicação e respostas para a perda que sentiam, e, nesse transe, os que puderam procuraram novos mundos na sombra do que tinham visto ruir. Joseph Schumpeter, Karl Popper e Friedrich Hayek, todos da geração de Sweig e seus «vizinhos», todos eles exilados e em fuga da Alemanha nazi, fizeram do desespero um credo. Desconfiados das ideologias que prometiam mudar o mundo, julgaram poder regressar a uma espécie de matriz original, imaginando uma forma de conciliação com a «natureza», livre e competitiva, que contribuiu fortemente para a matriz neoliberal que hoje nos governa.
Stefan Sweig procurou outros caminhos. Exilado no Brasil, viu ali a promessa de um mundo novo que convergia fortemente com a idealização lusotropical de Gilberto Freyre. Mistura harmoniosa de raças, desconhecendo o racismo, o Brasil seria o «País do Futuro», epíteto que cunhou e que viria a definir o Brasil durante décadas. Pouco importa dizer que Zweig estava errado; assinalar que nem a ausência de racismo nem o auspicioso futuro prometido ao Brasil tinham a consistência imaginada por Zweig. Tomemos antes a sua pouco lúcida análise como expressão do desejo de reconciliação com o mundo por parte de alguém que o perdera. Na verdade, a quem assistiu à morte do seu mundo, mesmo os devaneios inconsequentes são desejos toleráveis. Vendo bem, talvez no final de tudo Zweig tenha acabado por perceber que também naquele sonho se equivocara, decidindo morrer quando percebeu que a perda que sofrera só se apagaria com a morte. Suicidou-se em 1942, em Petrópolis, sendo acompanhado nesse ato pela sua mulher. Para memória futura deixou

uma última obra. Nela escreveu:

«Fui contemporâneo das duas maiores guerras. Conheci a liberdade individual em seu grau e forma mais elevados, e, depois, em seu nível mais baixo em muitos séculos. Fui festejado e desprezado, livre e subjugado, rico e pobre. Minha vida foi invadida por todos os pálidos cavalos do Apocalipse, revolução e fome, inflação e terror, epidemias e emigração».
Lemos estas palavras e sentimo-nos longe e perto de Zweig. Guia-nos a esperança de viver e morrer sem ter que experimentar, como ele, uma morte que nos mata. Porém, tememos o que lemos como uma premonição e é essa proximidade que nos atemoriza como uma sombra densa que obscurece os dias que vivemos.

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