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FESTA: UM PASSAPORTE OBRIGATÓRIO NA VIAGEM CINEMATOGRÁFICA

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
A celebração é um momento fundamental e inevitável na vida de todos os povos. A celebração é a festa como manifestação individual, coletiva, espontânea, programada, exigida, interrompida. E a festa é um percurso criativo no olhar de Arthur Duarte, Cottinelli Telmo, Emir Kusturica, Federico Fellini, Francisco Ribeiro, Jacques Tati e Sérgio Tréfaut num processo narrativo estruturado em memórias recriadas.
Emir Kusturica em Promise Me (2007) projeta uma organização coletiva de uma festa individual: o regresso do neto à aldeia exige o ritmo frenético dos músicos e das danças, num poderoso, subversivo e violento contraste com uma outra manifestação coletiva vinda de um objetivo individual: um funeral. A sequência do encontro das duas manifestações na mesma estrada, o contraste dos sons e dos rituais, as queixas do representante religioso e as exigências do avô definem a inevitabilidade surrealista de um indiscutível realismo. 
A força simbólica dos instrumentos de corda e de sopro dos Balcãs, concretizado na banda No Smoking Orchestra é um tema recorrente e estrutural em toda a obra de Kusturica, no acompanhamento tornado coletivo de situações marcadamente individuais. Na sequência inicial de Underground (1995) os músicos acompanham Blacky e Marko e celebram a entrada de Blacky no Partido Comunista; a cena de pancadaria na sala de bilhar, numa cave de Belgrado, é sempre acompanhada pelo grupo de trompetistas; na cave de Marko, a celebração do 3º aniversário da morte de Eva, projeta o fervor das canções de resistência de homenagem a Tito, sempre com acompanhamento dos trompetistas e dos mesmos ritmos. Em Gato Preto, Gato Branco(1997), a visita do neto ao avô hospitalizado subverte todas as regras. A banda de trompetistas e guitarristas instaura um clima de festa no qual todos acabam por alinhar.
Os casamentos são o exemplo individual de obrigatoriedade coletiva. Proliferam no olhar cinematográfico dos realizadores escolhidos. Fellini projeta o retrato social, a paródia, a caricatura, a encenação burlesca da personagens e as exigências da pose fotográfica, na sequência do casamento da Gradisca em Amarcord (1973). Emir Kusturica, num registo marcadamente fellinesco, constrói casamentos em Underground(1995), Gato Preto, Gato Branco (1997) e O Pai foi em Viagem de Negócios (1985). O Pai foi em Viagem de Negócios projeta um casamento cheio de mistérios, transgressões, adultérios e discursos. Underground define, no casamento da cave, a união de dois jovens cuja existência se constrói através da imagem platoniana do mundo. O casamento de Jovan representa a continuação dos rituais coletivos na cave, a fantasia de uma noiva suspensa no ar, através do canhão de um tanque militar, com véus e rendas a esvoaçar, filmada em contre-plongée ao ritmo dos trompetistas. Os músicos animam a festa colocados numa estrutura rotativa, em círculo, num plano que se repete durante uma festa popular em Gato Preto Gato Branco, onde os músicos tocam, em círculo, amarrados ao tronco de uma árvore.
Os santos populares, uma outra celebração da exuberância das colheitas, define o percurso cinematográfico das famosas comédias do Estado Novo, nomeadamente A Canção de Lisboa (Cottineli Telmo 1933), O Pátio das Cantigas (Francisco Ribeiro 1942) e O Costa do Castelo (Arthur Duarte 1943). As marchas populares, os bailes de bairro, os namoros e as canções preenchem a decoração minuciosa dos “pátios” lisboetas. EmO Pátio das Cantigas, o pátio do Evaristo é sobretudo uma arquitetura, uma confluência de janelas e escadas, uma espécie de Janela Indiscreta (Hitchcock, 1954) que engendra todo um jogo de comunicação entre as pessoas, toda uma cumplicidade tecida por e através de um espaço específico. Pedaços de Lisboa, os pátios são, ao mesmo tempo, um espaço arquitectural e um produtor de narrativas porque a “comédia à portuguesa” é também a imagem de uma cidade, apaixonada pelas casas de fado (outros espaços de celebração) e pelas tabernas, a imagem de uma cidade de bairros típicos: o Castelo, a Estrela, o Bairro Alto e Sete Rios.
As marchas populares estabelecem, nestas comédias, o universo de festas quase sempre focadas em contre-plongée. Projetam o universo popular e a identificação absoluta com o público. Durante as marchas, e pelas marchas, todos põem fim às suas quezílias e discussões, abraçam-se perante o fogo de artificio e trabalham em conjunto para a organização das festas dos santos populares que duram até às sequências finais de A Canção de Lisboa O Pátio das Cantigas.
Jacques Tati em Jour de Fête (1947) projeta a preparação, a organização, a decoração, a chegada dos artistas, o carrocel, as vivências da festa na aldeia com a banca de tiro, a banda de música, o carteiro (Tati), a velhota, o jogo das personagens, planos marcantes de movimentação individual e coletiva à volta da festa.
Sérgio Tréfaut em Os Lisboetas (2004), documenta os momentos festivos dos imigrantes com um baile de forró: a música, as luzes e os jogos eróticos definem um longo plano sequência que protagoniza a reflexão sobre o valor da festa no percurso da integração, momento chave da estruturação narrativa deste documentário.
Fellini define a inevitabilidade das festas populares, das danças e das manifestações musicais em Roma, Amarcord e Otto e Mezzo com o circo, o jogo e a magia dos músicos, bandas e sopro que animam as ruas e as festas populares e com as danças espontâneas e resistentes dos refugiados sérvios que chegam em E la nave va.
Há festa no cinema. A festa é o passaporte obrigatório no percurso identitário do herói. Estabelece a inevitabilidade da arte na vida humana e, por isso, o cinema não a esquece. E assim, o diálogo entre o cinema e a festa é, sempre, uma mistura subtil entre realismo e surrealismo.

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