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O NOSSO ADMIRÁVEL MUNDO VELHO

“Os benfeitores da humanidade merecem congruentemente a honra e a comemoração. Edifiquemos um panteão para os professores. Seria bom que ele ficasse situado entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa ou do Japão. E no pórtico da entrada do ossário inscreveria eu, em letras com dois metros de altura, estas simples palavras:

À MEMÓRIA 
DOS EDUCADORES DO MUNDO
SI MONUMENTUM REQUIRIS,
CIRCUMSPICE (se procuras um monumento, olha à tua volta.)”
Aldous Huxley ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, (Prefácio do autor, 1946)
REGINA SARDOEIRA
Fui atingida por este excerto do prefácio de Aldous Huxley, ao seu livro Admirável Mundo Novo, escrito em 1946 – 15 anos depois da publicação da primeira edição da obra.
Aparentemente, é um elogio aos educadores. E contudo, o contexto prova o inverso, já que o panteão estaria no meio de uma das cidades “estripadas da Europa ou do Japão” e a data evoca o fim da segunda guerra mundial.
Transportei esta impressão para os dias de hoje, a ver se faria ainda sentido. A ver se são os educadores do nosso tempo os responsáveis pelos “ossários” metafóricos e reais do nosso mundo. A ver se precisaremos de novos educadores capazes de abrirem caminho por entre os escombros e ajudarem na construção de uma nova sociedade.
A obra Admirável Mundo Novo data de 1931 e lança-nos numa visão utópica de um futuro – Aldous Huxley preconiza que seria 600 anos depois – em que a tecnologia invadiria por completo as sociedades, estando os homens transformados em seres obtidos por catálogo, sem mães, nem pais, nem famílias, cada um programado para ocupar um lugar específico no mundo, antecipado de acordo com as necessidades e sem nenhum desejo de ser outro, sem querer ascender ou progredir. A programação havia sido feita, primeiro pela via da inseminação e depois nos centros de incubação e condicionamento onde as crianças, ainda no berço, receberiam colectivamente instruções para serem um certo tipo de indivíduo – e não outro.
Acontece que o admirável mundo novo de Huxley chegou antes, muito antes da data prevista na utopia, ele está em vigor actualmente e os indivíduos, rotulados e etiquetados, com procedimentos equivalentes às máquinas que os colonizaram, andam por aí, somos, certamente e já, nós todos!
Ora, ter consciência deste facto obriga o educador a contrariar o rumo dos acontecimentos, obriga-o, quer seja professor, pai ou simplesmente um cidadão interveniente, a ser o travão da desumanidade que está a afundar a especificidade do ser humano e a convertê-lo em qualquer coisa de insólito.
Todavia, parece que há interesses, poderosos e oriundos das elites que governam, nesta ou naquela instância, cujo objectivo é, exactamente, o oposto. Ter exércitos de crianças, de jovens e de adultos manietados e desistentes do acto de pensar, criar cidadãos subservientes e amarrados a regras insanas, transformadas em lemas de vida, serve o sistema corrupto que, globalmente, nos comanda. Serve-o, para lhe dar poder, esse poder que se concretiza em dinheiro e bens de consumo, esse poder e esse dinheiro que só é possível para essas elites porque as massas estão devidamente alienadas. Sim, devidamente.
Cada uma no seu lugar, usufrui do seu quinhão de fuga à realidade, à sua realidade intrínseca de ser humano. Como seria possível, de outro modo, que todo um país adormecesse, maioritariamente, no usufruto de dezenas de telenovelas despojadas de qualquer valor, mas criadas, precisamente, para impedirem a crítica, a auto-crítica e o livre pensamento? E que dizer das centenas de bares onde se apinham multidões de todas as idades, bebendo até ao amodorramento num profundo estertor vital? Ou dos cada vez mais presentes campeonatos e taças e ligas de futebol, onde dois grupos de indivíduos convertidos em massas de músculos, autómatos sujeitos a uma escravidão, ainda que milionária, desempenham um papel ridículo – o jogo, em si, é trivial até à saciedade – mas, apesar disso capaz de galvanizar cabeças esvaziadas? Ou então, os espectáculos lamentáveis em que pseudo-artistas são guindados a cumes aos quais não pertencem, mas onde foram erguidos por força da mesma máquina alienatória, criada para embrutecer?
É necessário procurar afanosamente para encontrar um filme a que valha a pena assistir, um concerto musical que respeite a arte da música, um livro, escrito nos tempos de hoje, que traga a luz do talento embrulhada nas suas páginas.
Foram inventadas fórmulas, e designadas assim mesmo: fórmulas de sucesso. E o sucesso mede-se pelo número de mentes acéfalas que consomem o produto, como se quantidade fosse sinónimo de qualidade e padrão aferidor do que deve ser visto, ouvido, lido, praticado, enfim!
Justificam-se os autores das alarvidades: “Mas é isto mesmo que as pessoas querem, é disto que elas gostam!”, e eu objecto : “Se lhes servirmos outras refeições culturais, de lazer, de espectáculo e as privarmos do que está a embrutecê-las, decerto acabariam descobrindo novos gostos e aptidões e, anos mais tarde, quando confrontadas com aquilo que consumiam antes, já não perceberiam como puderam suportá-lo!”
Creio firmemente que os homens são capazes de muito mais e de muito melhor. Mas foram educados para seguir uma fórmula, o tempo encarregou-se de lhes extirpar certas zonas do cérebro, o corpo habituou-se a não querer outros estímulos. Por isso, os educadores, esses a quem são dados cérebros, mentes, espíritos, corpos – o que quiserem – ainda dotados da pureza original, para que os eduquem, são os responsáveis pela carnificina, literal e metafórica, dos nossos tempos.
Estamos a assistir à queda de uma civilização, a mesma que Aldous Huxley teve na mente quando escreveu a sua utopia, crente, decerto, que o seu admirável mundo poderia ser travado ou era uma ficção extra-ordinária e apenas isso. Não devemos admirar-nos

que sobre as nossas cidades caiam assassinos, dementes ou fanáticos para dizimarem o que resta. Não que eles o saibam, são produtos também, ainda que vindos de outros quadrantes, da mesma alienação; mas, a seu modo sanguinário e calculista, estão a ser os porta-vozes do fim dos tempos.

A era atómica dera frutos com todo o seu horror, na data em que Huxley escreveu este prefácio de que aqui deixo um excerto, e prometia ser a condição inequívoca das novas guerras. E contudo a guerra está instalada à escala global, dizima ora dezenas, ora centenas, uma vez aqui, outra acolá e não parece haver fim à vista. Porque os indivíduos isolados, e sem bombas atómicas, os pequenos grupos ao serviço de grandes potências e escudados nelas, vão urdindo o clima de terror instalado um pouco por toda a parte.
Uma mala esquecida num aeroporto seria um episódio banal, há algumas décadas atrás. Qualquer pessoa não hesitaria em observar a mala, tentando descobrir se tinha um nome e entregá-la no balcão respectivo para que fosse entregue a quem a reclamasse e provasse ser o dono. Hoje, a mala não foi “esquecida” mas sim “abandonada” e a sua presença inofensiva de bagagem transviada num aeroporto – e que há aí de mais vulgar que malas em aeroportos? – transforma-se numa ameaça e desencadeia o pânico. Evacua-se o espaço, convocam-se as autoridades, chamam-se os especialistas; e num acto de dramatismo histriónico rebenta-se a mala e mete-se a mão para tirar…peças de roupa e objectos de uso quotidiano!
É necessário, pois, que os pedagogos renasçam deste mundo, que nada tem de admirável à superfície mas esconde, sem dúvida, inviolada, a semente de um futuro humano. E o panteão aos educadores poderá, depois, ser erguido, não entre ruínas e no pórtico dos ossários de muitas e variadas carnificinas, mas no cerne de cada um que verá, em si e no olhar dos outros, a dignidade restabelecida.

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