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O QUARTO DE MINDA

ELISABETE SALRETA 
Minda procurava um quarto desesperadamente.
Eram raros, nestes dias. Já todos tinham sido ocupados. E eram defendidos com unhas e dentes. O tempo urgia, a noite chegava e ela não tinha onde deixar o seu mais belo tesouro. Sentia que aos poucos ia perdendo a energia por o manter consigo. A força da natureza teimava em pedir que o deixasse ir. Mas ela estava disposta a só o deixar ficar se fosse num sítio seguro. Um lugar especial onde pudesse acrescentar tesouros ao seu tesouro e vê-los brilhar ao sol. Cuidar deles despreocupadamente e apreciar o passar dos dias na sua companhia.
Por fim, numa rua onde já tinha passado vezes sem fim, e sem se aperceber, lá estava ele. Apoderou-se dele e tornou-o seu. E sem cerimónias guardou nele o seu bem mais precioso. Deixou-se estar a apreciar aquele momento que vem depois da alegria da vitória. Espreguiçou-se e adormeceu. Acordou com o sol a bater-lhe nos olhos, já alto. Aquele quarto era tão acolhedor que já se tinha esquecido da fome que a assomava. A sua procura tinha sido tão angustiante que agora, todos os demais problemas, tinham uma importância muito pequena.
Deu por um mirone que a observava da sua janela. Afinal, a janela do seu quarto, dava com a janela do vizinho, assim tão perto. Ele estava estasiado e parecia gostar da sua companhia. Via-se no sorriso do seu rosto. E ela deixou-se ficar um pouco mais por ali antes do pequeno almoço.
Saiu do quarto para esticar as pernas e quando chegou tinha uma oferta generosa do seu vizinho. Ali à porta. Deveria de ser uma oferta de boas vindas. Não se fez de rogada e serviu-se daquele pequeno almoço à sua disposição.
Depois voltou ao quarto para mais uma vez apreciar o seu tesouro que em pouco tempo se multiplicou.
Minda é uma pomba brava que escolheu a cidade para viver, como tantos animais selvagens o fazem. Invadimos o seu habitat e ficamos descontentes quando eles ocupam o nosso. Minda teve a sorte de achar um vaso disponível numa varanda e de o dono não a expulsar como tantas vezes acontece em que, almas escuras, despejam os pais e os ovos ou mesmo os filhotes acabados de nascer e sem qualquer hipótese de sobreviver.
Sejamos tolerantes. Afinal, eles também o são connosco quando se afastam para longe ao tomarmos como nosso, aquilo que sempre foi deles. A natureza é de todos. Estamos cá para ajudar, não para destruir. Destruindo o que nos rodeia, destruímos a nós mesmos.
Vale a pena pensar nisto!

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