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BIRD Magazine

VENI. VIDI. VICI.

HELENA COUTINHO
Dizem que o mundo é dos que mandam mas teimo em questionar. É certo que quem manda tem poder e tem, principalmente, o poder de decidir tudo o que lhe interessar, mas ninguém me “desconvence” de que se soubéssemos dar uso aos nossos poderes seriamos, também, capazes de tornar a vida mais exigente para os que se julgam infinitamente poderosos. O mundo é dos que sabem respeitar e valorizar, a si e aos outros, e isso, desenganemo-nos, é um poder que se conquista. O mundo pertence aos que não permanecem acorrentados ao poder dos outros e que, acima de tudo, sabem que para conquistar a sabedoria da vida é preciso partir, para depois chegar, ver e vencer.
Às vezes, o pensamento adormece derrotado, amarrotado, e depois, quase que por magia, acorda despido de ideias e de ideais. E eu gosto, porque é nesses dias que a vida parece recomeçar, lentamente, como recomeça a vida das sementes que aguardam o subtil sinal da Primavera, para abandonar o refúgio de Inverno, no momento certo. Ao acordar, o pensamento espreguiça a poeira do passado, respira a luz do presente, e escolhe novos rumos para vestir. Frequentemente obrigam-nos a repensar o pensamento, e o corpo que o reveste sorri e agradece. Porque a vida é parente do céu e do mar. É cheia de ventos e de marés, cheia de tudo e de nada. Ironicamente, hoje, como nunca, a forma como nutrimos e vestimos o pensamento depende mais dos outros do que de nós. A sociedade parece vergar-se, cada vez mais, sobre si mesma, em vez de florir e de se expandir, à boleia do conhecimento. E, nos jardins do tempo, podam-se as vontades, as crenças e os sonhos, para que cresçamos na mesma direcção, no mesmo compasso e até à medida considerada certa. Incessantemente aparam-se as pontas soltas, corta-se pela raiz o que interfere na harmonia da normalidade, e adubam-se as maiorias e grilhões inquestionáveis. Afinal, no século XXI, sobrevive-se a uma liberdade tirana.
Num desses dias apadrinhados pela luz da mudança, aconteceu-me uma epifania em forma de poema inacabado. Poucos minutos passavam das sete da manhã, quando os meus olhos tentaram ler os versos sussurrados pelas entrelinhas dos teus cabelos. O preto, outrora nutrido pela juventude, despediu-se do futuro, dia após dia, até dar lugar ao branco amarelado original. Entrançados por aventuras, desventuras e lembranças, os teus longos cabelos teceram e rimaram certezas e dúvidas que tocaram os meus olhos e o meu coração, como se fossem notas musicais a tentar penetrar a minha alma. Naqueles instantes, feitos de eternidade, percebi a beleza e a crueldade da fragilidade humana. Resumiste a história da vida, em poucos segundos, mas foi o suficiente para sentir que ainda querias prolongar a tua viagem. Inspiraste profundamente todas as vitórias e tudo o que te fazia feliz, na tentativa de encontrar forças para parir novos minutos. Não desististe, como sempre, mas não conseguiste aguentar as dores desse último parto. E eu fiquei ali, a segurar as tuas mãos, como se segurasse as mãos da vida, prestes a cair num abismo, até seres tu a deixar de ter força para agarrar as minhas. Perdi-te! Perdemo-nos… Mas jamais largarei a tua mensagem.

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