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CAPÍTULO 5 BASILIDES VILLANOVA: O NOSSO PLANETA

BRUNO SANTOS
– Porque trouxeste o Mocenigo?
– Foi ele que pediu para vir. Insistiu que queria falar com o Avô.
– Porque quiseste ver o Avô, Mocenigo?
Mocenigo não respondeu e virou a cara para a janela por onde começara nesse instante a entrar uma espessa faixa de luz. Cerrou as pálpebras por alguns momentos e fez uma inspiração muito funda, como se além do ar quisesse aspirar um pouco daquele Sol intruso para dentro dos seus pequenos pulmões.
– Porque vieste, Mocenigo? – Insistiu Basilides.
– Avô, qual é a última parte do Céu? – perguntou o pequeno ainda antes de abrir os olhos.
Basilides conhecia bem esta rara capacidade do seu neto para desfazer num sopro a mais inexpugnável teoria do conhecimento. Embora tivesse apenas cinco anos, Mocenigo tinha apenas cinco anos. Agia e falava como falam e agem as crianças com a sua idade ou o mais cáustico discípulo de Diógenes. Um pouco desarmado pela pergunta, o velho Basilides não se deixou vencer à primeira e esboçou uma resposta.
– Sabes, Mocenigo, talvez não exista uma última parte do céu. É muito provável que haja outra parte depois da última e depois mais outra e outra ainda. Essas partes vão sendo cada vez maiores para lá caberem os sonhos e todos os mundos que se vão sonhando nas outras partes, que nunca são tão grandes que não possa haver uma ainda maior. Percebeste, meu filho? É assim como as bonecas russas…
Mocenigo enfiou o dedo no nariz enquanto abria os olhos e interrompeu a resposta do Avô.
– Estás com a cabeça na Lua, Avô? O Céu nunca acaba nem nunca começa. O Céu está nos nossos
olhos. À volta da nossa cara. A nossa cara é o nosso planeta.

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