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ONANEMO-NOS

LUÍS CUNHA
Começo esta crónica por uma confidência, que é também uma justificativa para o tema escolhido. Preocupado com a inspiração dos cronistas, ou com a falta dela, o Editor desta revista tem o cuidado de assinalar aquilo a que é dedicado cada dia da semana. Aos clássicos dias do pai, da mãe e da criança, juntam-se hoje dezenas e dezenas de outras evocações, que não deixam um único dia do ano sem esta espécie de padroeiro dos tempos modernos. O difícil é encontrar tema ou assunto que não tenha o seu dia. Difícil mas não impossível, tanto assim que eu encontrei um e por isso proponho a constituição do Dia Internacional da Masturbação. 
Arte discreta ou, mais ainda, secreta, exemplo perfeito das virtudes e defeitos da auto-aprendizagem, está na hora de resgatar da imerecida sombra esta forma de consolo, que não é só dos solitários mas também dos sábios. De entre estes apreciemos a clarividência de Diógenes, esse mesmo que de lanterna em punho percorria as ruas de Atenas declarando procurar um homem honesto sem que entre toda aquela multidão lograsse encontrá-lo. Este Diógenes, que por habitação tinha uma simples barrica, foi por todos visto masturbando-se em plena Praça Pública enquanto proclamava: «Ah, pudesse eu satisfazer o meu estômago de maneira tão simples». Menos sábio que Diógenes mas bem mais conhecido, Woody Allen escreveu, com acerto: «Não menosprezes a masturbação. É fazer amor com a pessoa que mais amas». Narciso entenderia o cineasta e dar-lhe-ia razão, assegurando que não há paixão que se compare à que podemos sentir pela mãozinha que Deus nos deu. Já Diógenes coloca a masturbação no mesmo plano da manducação, vendo nesta uma preocupação e na primeira um alívio. Em todo o caso, faço notar, de forma bem diferente consideramos nós esses dois prazeres: se a manducação solitária nos parece normal, seja por aperto de horário ou falta de companhia, tendemos a olhar com desconfiança e desaprovação o prazer sexual obtido a sós. Diógenes, que era um sábio, saberia explicar porquê. Eu, que não sou sábio, apenas suspeito da razão de tal desacerto. Pudéssemos nós ser outros; pudéssemos deixar para trás o (mau) lastro cultural que às vezes nos prende; pudéssemos «Acabar de vez com a cultura», título dado por Woody Allen a um dos seus livros, e seria outra, e menos tensa a nossa relação com o prazer. Mesmo com o solitário. 
A má fama da masturbação tem, certamente, várias raízes, mas uma delas, como não podia deixar de ser, está na Bíblia, concretamente na má interpretação de uma narrativa inserida no Genesis. Trata-se, naturalmente, da história de Onã, personagem de que deriva o substantivo «onanismo», sinónimo de uma prática que aqui proponho para Dia Internacional. Onã, ao contrário da fama, não é um masturbador, pelo que devemos recusar tê-lo como padroeiro da prática e do Dia. O que sucedeu foi que Er, o irmão de Onã, morreu sem deixar descendência, pelo que o pai de ambos, Judá, ordenou a seu filho que cassasse com a viúva do irmão para dessa forma assegurar um primogénito que seria o herdeiro legal de Er. Ao que parece o noivo não terá achado grande piada à situação: «Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sémen na terra, para não dar descendência a seu irmão». O terrível Deus vingativo do Antigo Testamento acaba por matar este adepto inconsequente do coito interrompido, só que o pior de tudo foi os crentes terem tomado essa divina punição como sinal de oposição à masturbação. 
A ideia de um ato estéril, associal e pecaminoso, perseguiu desde muito cedo e de várias formas o exercício de auto-satisfação masturbatória. Putativo responsável pelas borbulhas dos adolescentes que abusam da prática, suspeito de cegar quem a ela se entregasse, a masturbação alimentou uma má fama imerecida. A literatura ocupou-se dela talvez menos do que devia, mas ainda assim engendrou páginas inspiradoras. Procure-se em «O Complexo de Portnoy», obra desse eterno candidato ao Nobel que dá pelo nome de Philip Roth, as desventuras de um jovem adolescente tenazmente masturbador. Coisa de adolescente? Nem por isso, bastando ver como Leopold Bloom, homem maduro e casado, recorre a esse fácil expediente no culminar do inesquecível Bloomsday descrito por James Joyce em «Ulisses». Nem Portnoy nem Bloom estão sozinhos no ato. Atrever-me-ia a dizer que ninguém se masturba sozinho, havendo sempre convidados, figuras próximas ou distantes, que não sabem, e que talvez nunca venham a saber, que estiveram ali, metidos em ação por força de uma imaginação fértil e convincente. Enorme vantagem esta, a de poder convocar quem se quer e até mesmo pintar quem se convida com as melhores cores, mesmo se estas, no culminar do processo, desbotam e perdem a graça – aconteceu a Bloom, já que as curvas da moça com quem fantasia ao masturbar-se perdem metade da graça quando termina o «serviço». 
Wilhem Reich calculava que o ser humano terá uma média de quatro mil orgasmos na vida. A pergunta que se impõe, então, é clara: valerá a pena desperdiçar algum deste stock em pulsões solitárias? Eu cá não sei, e acho que cada um terá que encontrar a resposta que lhe convém. Porém, não posso deixar de considerar que algo que foi tão reprimido ao longo dos séculos algum proveito há de transportar no ventre. Combatida militantemente por religiosos e moralistas mas também por profissionais de saúde, a inofensiva masturbação merece uma oportunidade, talvez mesmo um Dia Internacional assinalado no calendário. À violência de tantos séculos, que incluiu intervenções cirúrgicas (cliteridectomias), cintos de castidade e o banal amarrar da mãozinha marota à barra da cama, deve dar lugar ao amor incondicional por nós mesmos (Woody Allen) e à valorização de uma prática que tem uma baixíssima pegada ecológica (Diógenes) – afinal ninguém precisa sair de onde está, o que poupa imenso em transporte, alojamento e bebidas propiciatórias. 
Por outro lado, na Era do Conhecimento como desprezar a possibilidade de nos conhecermos e descobrirmos? Cito Georges Bataille: «Mete os dedos nas tuas dobras húmidas. Será doce sentir em ti a acritude, a viscosidade do prazer – o cheiro molhado, o cheiro insosso da carne feliz». Pois é, conhecimento da fêmea, e com ela queria terminar, já que nela, ou na representação que a nossa cultura dela nos dá, se combina a repressão cega com a imaginação erótica (masculina) mais desbragada. De tal forma que cientistas e amadores são facilmente apanhados numa teia de sentidos imprecisos e contraditórios, entre o dese

jo de ver e ambição de controlar a sexualidade feminina. Dos médicos que manipulavam as mulheres nos seus consultórios, numa masturbação terapêutica que julgavam curar a histeria diagnosticada às pacientes, a outros terapeutas que prescreviam medidas disciplinares radicais, como insensibilizar o clítoris com fenol, forma máscula de travar feminis devaneios eróticos e mesmo o perigo de cair na ninfomania. Quantos atos propiciatórios seriam necessários para obtermos a absolvição dos desmandos repressivos de tantos séculos? Pela minha parte contribuo com uma receita oferecida por Pierre Louÿs no seu livro «Diálogo de Cortesãs»: «Mistura 30 gramas de vaselina, 5 gramas de farinha de mostarda, 2 gramas de pimenta de Caiena e 3 gramas de ácido bórico. Molha a extremidade do dedo médio na mistura e unta de forma regular o clítoris e os lábios antes de começares a masturbar-te». Fica a ideia. É que quando o Dia Internacional da Masturbação foi decretado convém estar preparado/a.

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