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A LÍNGUA PORTUGUESA E OS ESTRANGEIRISMOS

REGINA SARDOEIRA
Estive a percorrer a lista dos estrangeirismos usados no contexto da conversação portuguesa, oral e escrita, e compreendi que são algumas centenas. Compreendi ainda que muitos foram já assimilados, fonetica e graficamente , à língua, enquanto outros surgem, isolados e na grafia e pronúncia originais, deslocados no conjunto do texto, mas impregnados de intenção. 
Sei bem que a língua é dinâmica e permeável a influências diversas, decorrentes do tempo e do espaço; e ainda que vivemos uma época globalizante, onde a velocidade comunicativa é circunstância inapelável. 
Duas questões me parecem pertinentes. Devemos, nós, que cultivamos a língua e atribuímos importância ao rigor e à estética, na formulação de textos, pugnar pela predominância das palavras legitimamente portuguesas, evitando a avalanche de termos importados ou, pelo contrário, em nome desta dinâmica globalizante, decerto irreversível, devemos consentir na mescla confusa em que a língua se vai tornando? 
Por mim, sempre lutei pelo uso dos nossos genuínos vocábulos, mesmo quando percebo quão fácil é, realmente, enfileirar na mistura. 
Dificilmente me ouvirão dizer “selfie” para designar “auto-retrato” ou “post” para aludir a “publicação”; não uso “briefing” , em vez de “comunicado” ou “brunch”, para referir pequeno-almoço alargado (de notar que a palavra, em inglês, já reúne fragmentos de duas outras, breakfast e lunch, respectivamente, pequeno-almoço e almoço); best-seller, ou o mais vendido, significa menos para mim do que a corruptela “besta célere” que designa, segundo Alexandre O’Neil, um produto medíocre ou francamente mau, normalmente um livro, feito segundo uma fórmula simplista que garante o topo nas vendas. 
Por outro lado, reparo que digo atelier e não oficina, passepartout e não moldura, abajour e não quebra-luz…e tantas outras palavras que, há décadas, se insinuaram na língua portuguesa. Sendo assim, valerá a pena o purismo de evitar cuidadosamente, os termos ingleses – principalmente ingleses – que ameaçam pontilhar o nosso modo de falar e de escrever, a ponto de desfigurarem o idioma original? 
Sem querer retirar atributos às línguas dos outros povos que serão, para eles, as mais bonitas, e reconhecendo em algumas delas, inequívoca beleza e concisão, continuo a preferir expressar-me em português. No genuíno. Sem acordos ortográficos pouco consistentes ou estrangeirismos desnecessários. 
Em nome da estética e da especificidade linguísticas continuarei na demanda de sinónimos, sempre que um termo me soar menos belo ou adequado. 
É o caso da palavra “implementar” que comecei a ouvir há uma ou duas dezenas de anos e me soou muito mal, não me parecendo português legítimo. Fui pesquisar, usando o meu dicionário de dez volumes, e não encontrei semelhante verbo. 
Percebi então, após algumas pesquisas, que se trata de um neologismo, importado do inglês (to implement) ainda que o substantivo “implemento” (acessório, apetrecho) conste do referido dicionário. Compreendi ainda que o termo tem origem na linguagem industrial, sendo vulgarizado e adaptado a outras áreas, dado o seu significado que une a implantação de seja o que for à sua efectiva instrumentalização. Mas, efectivação, realização, execução são sinónimos absolutamente fidedignos, pelo que me dispensei sempre de utilizar esse verbo, que me pareceu feio e bizarro desde que o ouvi pela primeira vez (e foi tão profundo o choque desse instante que sei, exactamente, quem o pronunciou, onde o fez e qual o contexto!). 
To implement não me choca absolutamente nada, pois insiro o verbo no contexto da língua inglesa de onde deriva; implementar foi e é uma palavra que me incomoda. Do mesmo modo, “post”, termo utilizado para designar uma publicação feita na internet (e eis aqui outro estrangeirismo!), “postar” ou “postagem “, dela derivadas me parecem erros, assim mesmo, erros de português! 
” Post” , do latim, significa “depois” e usa-se, legitimamente, em expressões como “post-scriptum” , “post-mortem” e ainda aglutinado, enquanto prefixo, a vocábulos como “posterior” , “póstumo” , etc. Ora, esta importação de “post” do inglês e as suas derivações, mais ou menos empíricas, postar e postagem, chocam com a necessidade que reside em mim de preservar a autonomia linguística. 
Ao mesmo tempo que reflicto acerca destas peculiaridades do instrumento privilegiado de comunicação que é a língua e vou dando conta de algumas das minhas restrições, quanto ao uso de certos estrangeirismos e afins, percebo a inutilidade de demonstrar a quem quer que seja, que o uso e abuso de certas palavras, importadas do inglês, descaracteriza a língua portuguesa, não lhe acrescentando nada de válido. 
Vivemos um tempo de descaracterização absoluta e os que resistem e preservam valores são considerados antiquados ou ridículos por se deterem em semelhantes minúcias. 
Um acordo ortográfico, mal gizado e deficientemente explicado aos escreventes, transformou a grafia de certas palavras, desfigurando-as, inutilmente. A supremacia da língua inglesa invadiu o léxico português e parece uma perda de tempo procurar significados, e talvez sinónimos, para evitarmos o estrangeirismo adaptado, sem aspas ou itálico, com que manteriam o seu carácter estrangeiro. O modo como os brasileiros falam português, abolindo, por exemplo, os advérbios – “Faz isso rápido” , em vez de, “Faz isso rapidamente” – entrou, de mansinho, e institucionalizou-se. 
Poderia multiplicar exemplos, decerto todos podem fazer esse trabalho, visto que expressamo-nos pelas palavras e delas retiramos e com elas transmitimos pensamentos e emoções. Porém, creio que a batalha está a priori perdida e cada vez mais terei que lidar com as intromissões desnecessárias de estrangeirismos, não conseguirei, decerto, escapar ao acordo ortográfico e serei compelida a chamar “escritor” a quem, me

diocremente, junta palavras e frases num livro.

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