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A VÃ GLÓRIA DE MANDAR

JORGE NUNO
É natural chegar-se a esta altura do ano com a sensação de necessidade de evasão, sair para qualquer lado, simplesmente sair como se isso pudesse contribuir para alguma desintoxicação mental. Admito que esse sentimento possa ser mais forte para quem trabalhou afincadamente durante um ano e espera a oportunidade de uns merecidos dias fora da rotina diária; mas também o será para quem é agora considerado “inativo”, apesar de continuar a dar contributos válidos à sociedade.
Mesmo para quem procura exercitar a paciência, há alturas em que a falta dela é gritante, o que promove essa necessidade de evasão e, pior que tudo, quando conduz à necessidade de alheamento aos reais problemas – o que é ainda mais gravoso –. E quem não se sente assim, ao observar tanta incoerência, desfaçatez, inverdade!… Na ilusão do poder, há quem pense safar-se entre os pingos da chuva sem se molhar, fazendo uso da retórica, por entender que aguenta o barco quem tiver melhor capacidade de argumentação. Sempre ouvi dizer que os bons marinheiros conhecem-se na tormenta, com o mar extremamente agitado. Agitação não falta… e, quando se está no mesmo barco, não pode ser “safe-se quem puder!”. É preciso levar o barco a bom porto. Para tal é fundamental: competência, conhecimento da realidade e entusiasmo na viagem, mesmo sabendo dos perigos e do esforço pessoal e coletivo que tal exige.
A voz presidencial tenta sossegar os ânimos, dizendo: “há que apurar os factos até às últimas consequências, doa a quem doer”. A oposição apressa-se a pedir que rolem cabeças e aponta, claramente, as de um ministro e de uma ministra. O primeiro-ministro desdramatiza com: “estão a decorrer inquéritos; até lá não há culpados”. Essa ministra, aproveita o empurrão [no bom sentido] e diz precisamente o mesmo, recusando apresentar a demissão. O outro ministro, mesmo antes do resultado dos inquéritos, diz que é o “responsável político” [pelo ocorrido], mas mantém-se em funções. Um ex-primeiro ministro afirma, acirradamente para as câmaras de TV, que o atual primeiro-ministro devia dar prioridade ao apoio às vítimas [três semanas depois de terem ocorrido] e exige que se “avance com indemnizações rápidas”, quando outras vítimas de um acontecimento semelhante [à época em que era o responsável máximo do Governo] ainda estão hoje à espera dele! Face a uma ocorrência grave para a segurança do país, um chefe de Estado-Maior exonera cinco comandantes, mesmo antes de se dar início aos habituais inquéritos, para logo numa reunião, e mais tarde na TV, deixar escapar que mantém a confiança nesses comandantes e chama a si a responsabilidade do ocorrido, descartando a responsabilidade política do ministro da tutela. Não deixa de ser curioso… mesmo sendo considerada uma “ocorrência grave”, o Sistema de Segurança Interna terá avaliado o risco e mantém que o nível de ameaça do país é “moderado”.
Hoje, quem lê Camões, surpreende-se quando ele dá voz ao Velho do Restelo, no Canto IV, de “Os Lusíadas”, colocando umas “farpas” quando tudo apontava apenas para os feitos gloriosos daquela época áurea (século XVI):
“(…)
Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que morte, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas.
(…)
Chamam-te Fama e Glória soberana
Nomes com quem se o povo néscio engana!
(…)”
Mesmo que se queira “mudar de canal”… outros, em áreas improváveis, também parecem estar contaminados. Na vertente desportiva, alguns feitos importantes em modalidades amadoras e semiprofissionais são completamente abafados pelos escândalos do desporto-rei, que fazem manchete. São excessivas as vezes que surgem as palavras: “fraude”; “e-mails”; “arbitragem”… associadas à falta de verdade desportiva, dando pistas como se podem ganhar campeonatos, ou forjando argumentos para justificar insucessos e denegrir a imagem do “inimigo”.
É fácil lançar e propagar um boato, como o caso do avião Canadair – e logo espanhol –, que teria caído no combate ao flagelo dos incêndios. Com a técnica da contrainformação (tantas vezes usada, sem olhar a meios) pretende-se neutralizar os serviços de informação do campo inimigo. Pode aparentemente “ganhar” quem for mais desonesto, mas mais perspicaz. Seguramente, fica a perder quem se envolve na disputa e quem é apanhado no fogo cruzado.
No meio de tudo isto… visualizo o doce sentir de uma caminhada, sem esforço, sem pressa, algures no Parque Nacional da Peneda-Gerês, ou sob temperaturas amenas, num dos vales próximo dos glaciares dos Alpes. Neste último, suficientemente longe, observo: as marmotas pequenas a brincar, sob o olhar atento de elementos adultos, que se revezam e se mantém de pé, cumprindo bem o papel de vigia, para segurança da colónia (mostrando que estes animais conseguem fazer melhor que alguns militares indolentes); as cabras selvagens, sem vertigens, que nos surpreendem e fazem pensar como é possível resistir naquelas condições; a vegetação luxuriante, com destaque para a flor Edelweiss, com que a natureza brinda quem a visita…
Nesta tranquilidade revigorante, como se se tratasse de um detox mental… fica-se melhor preparado para aguentar o embate e resistir a quem terá a vã glória de mandar.

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