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O FIM DAS CAVES DE VINHO DO PORTO

BRUNO SANTOS
A comunicação social noticiou o arranque de um projecto imobiliário e turístico no coração do Centro Histórico de Vila Nova de Gaia, implicando a destruição de centenários Armazéns de Vinho do Porto e uma intervenção que afectará uma área superior a 30 mil metros quadrados numa das mais belas e exclusivas paisagens urbanas do mundo.
De facto, esta zona da cidade de Gaia é conhecida mundialmente pela beleza da sua textura arquitectónica única, dominada pelos telhados dos seus Armazéns, as famosas Caves, que estabelecem com o Rio e o núcleo urbano da Ribeira do Porto um cenário cuja beleza não se repete em lugar nenhum do mundo.
O que se iniciou foi o fim desse património intemporal, que se constitui como pilar da identidade não só desta região, mas do próprio país, e que agora se prepara para uma total descaracterização, vendo-se transformado num centro comercial a céu aberto, com o pomposo nome de World of Wine.
Segundo a notícia, o projecto previsto para o local, contíguo ao Hotel Yeatman e que implicará a demolição e total descaracterização dos antigos Armazéns, é uma espécie de Disneylândia do vinho, um corpo estranho ao perfil histórico, sociológico, estético e arquitectónico do local, onde abundará o cimento e o vidro, dedicado aos turistas e prevendo uma “Praça”, museus “interactivos”, 12 restaurantes e, como não poderia deixar de ser, um parque automóvel com capacidade para 150 viaturas. Tudo isto no coração do Centro Histórico de Gaia e com os portugueses a servir à mesa, como bons criados.
É verdade que já não há muito quem se choque com a degradação, ou mesmo com a destruição do nosso património material e imaterial. De festas privadas nos Jerónimos a botijas de gás no Convento de Cristo, tudo vale no combate pelo aniquilamento da memória e do legado de quem nos antecedeu na construção contínua desta estranha entidade chamada Portugal. A par desta demissão cívica, deste abandono moral, há uma geração de políticos e responsáveis públicos formados no caldo da moscambilha e da ambição pessoal megalómana, capazes de prostituir o que de mais íntegro e autêntico o seu país possui, em nome do seu interesse imediato e ao serviço das redes de poder das quais são meros fantoches. Tudo isto sem qualquer oposição, cívica, jurídica ou política. Ou quase nenhuma.

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