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O MUNDO MISTERIOSO DAS PALAVRAS

REGINA SARDOEIRA
As palavras são arquétipos simbólicos de um tempo em que a linguagem articulada não havia sido inventada e os homens emergentes usavam outros signos para comunicar. Nada sabemos sobre o momento exacto em que os sons emitidos pelos hominídeos passou a constituir o nexo a que hoje damos o nome de signo verbal, enunciado, frase ou texto e creio mesmo existir um enorme fosso de entendimento no que diz respeito à relação entre o pensamento e a palavra. Qual deles nasce primeiro? O pensamento, tecido em ideias e logo abstracto, fabricado na mente e dela prisioneiro? A palavra, qual hierofania, vinda de um universo divino e atribuída ao homem, excepcionalmente, para o demarcar do restante mundo animal? É a ideia ou eidos que estrutura a palavra ou logos conferindo-lhe profundidade ou é o logos que irrompe sem antecipação eidética cobrindo de materialidade pregnante o carácter fluido da ideia? 
Existem muitos tratados sobre a linguagem e o seu despontar, no homem, esta linguagem feita de sons articulados, coesos e coerentes que irrompe instantaneamente como um fluxo inspirado e quase sobrenatural. Por mim, advogo a surpresa e a ignorância face a um tema desta natureza. 
É evidente que nós, humanos, falamos e expressamo-nos usando uma quantidade vasta de signos linguísticos. Temos, para esse efeito, cordas vocais dotadas de plasticidade, que, treinadas por um longo uso, se adaptaram à linguagem. Mas, de per si, as cordas vocais não geram a língua e sabe-se que se faltar a uma criança o estímulo social que a motive a querer comunicar como o resto do mundo, ela não adquirirá essa competência eminentemente humana. 
Esta verificação, levada a cabo por cientistas que estudaram o caso de crianças selvagens, perdidas ou abandonadas e alimentadas por animais de outras espécies, incapazes de aprender a falar, mesmo com as cordas vocais intactas (ainda que privadas de plasticidade) envia-me para a importância da sociedade na emergência e aprendizagem da língua. 
Parece que apenas a sociabilidade possibilitou a necessidade de comunicar, falando, e parece que, ainda hoje, se tal requisito faltar a uma criança ela não poderá articular as palavras. 
Ora, se bem que esta verificação traga em si foros de evidência, algumas questões subsistem: possuirá ideias esse humano que, afastado da convivência com seres da mesma espécie, não emite os sons articulados a que chamamos palavras? Se a resposta for afirmativa, como serão essas ideias, que figura desenharão na mente daquele que, mesmo não falando é, apesar de tudo, humano? Existirão ideias sem palavras? 
Questões complexas e até um pouco paradoxais, de tal modo nos habituamos a falar e a pensar e a dizer que temos ideias e que elas são o tecido do pensamento. Mas imaginemos um pensamento sem o suporte das palavras: seria ainda pensamento? 
A mente humana é um labirinto complexo, vazia de ideias, à nascença, uma tábua rasa onde nada está gravado, como afirmam os empiristas, ou a sede das ideias inatas, nela impressas antes de sermos constituídos esta dualidade mente/corpo e tarde ou cedo rememoradas, segundo Platão ou constituídas actos e palavras, no momento oportuno (mas qual?). Descartes, não o disse, expressamente, preferiu dar a Deus esse privilégio: Ele, que nos criou, dotou-nos de ideias, imprimiu-as na alma de cada um, tornou-as “sementes da verdade.” 
Jonh Locke, o empirista inglês, sustentava que a alma nascia vazia e só a experiência imprimia nela as ideias; Descartes nega o empirismo, dando o primado ao carácter inatista das ideias. Kant, articula as duas teorias, afirmando que na ordem do tempo, cronologicamente, nada precede um nós a experiência; porém, só o poder a priori do nosso entendimento é capaz de sintetizar o produto da experiência ou intuição sensível com as categorias que lhe são imanentes, gerando o conhecimento especificamente humano. 
Por muito interessantes e mesmo plausíveis que sejam tais teorias gnoseológicas, nenhuma delas dá resposta à questão fundamental: em que momento a experiência descobre que o acervo de impressões sensíveis pode ser traduzido em ideias e estas formularem-se em palavras? Como e quando descobre o indivíduo que possui, de origem, as ideias, as sementes da verdade para pô-las em acção, gerando o pensamento e o discurso? E as categorias do entendimento, essas formas a priori, tão caras a Kant, como e quando se apropriam dos dados sensíveis para engendrarem conhecimento – e logo ideias articuladas capazes de se constituírem em palavras? 
O mecanismo básico pode mesmo ser esse e eu sempre admirei a lógica transcendental de Emmanuel Kant, capaz de construir activamente o que em Locke e em Descartes são meros dados, provenientes da experiência ou de Deus. Falta porém saber que poder obscuro provoca a capacidade do discurso, esta espécie de mágica que desencadeia torrentes de palavras articuladas e coerentes ou enunciados mentais que constituem a corrente do pensamento.

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