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VOLTE BREVE!

ANABELA BORGES VISITA IPSS «O BEM ESTAR», EM GONDAR
“Se o tempo envelhecer o teu corpo mas não a tua emoção, tu serás sempre feliz”. Esta frase, atribuída ao professor e psiquiatra Augusto Cury, está inscrita num dos corredores de acesso à sala de actividades.
São vários os passos que percorro desde o portão até ali. São passos exactos, mas vão carregando um certo desassossego. Na recepção, tomo a direcção oposta à da creche. Em tempos (havia apenas alguns meses), tinha feito o caminho para lá, para a creche, esse caminho em direcção ao futuro, ao progresso, feito só de risos e de promessas.
Agora os meus passos levam-me para o Lar / Centro de Dia. O caminho faz-se de desassossego e de uma expectativa com laivos de ansiedade, mas sempre atida a um optimismo sadio (que não sei viver sem ele).
À medida que percorro os vários corredores, vou sendo surpreendida pelo cenário austero da longevidade, da letargia e da demência. Alguns utentes deambulam pelos corredores em monólogos invisíveis, outros dormitam nos sofás, e outros ainda estão tristemente encostados às paredes amparados pelos andarilhos.
Chegamos à sala de actividades. É uma sala ampla, limpa, fresca. Os nossos maiores, os séniores, vão-se dispondo em semi-círculo – uns com mais, outros com menos dificuldade; uns auxiliados, outros não.
Os meus anseios dissipam-se automaticamente, assim que vou cruzando o olhar com cada um. A placidez e a condescendência são o cartão-de-visita, aquelas características tão próprias, de tal assento, que apenas conseguimos encontrar na idade sénior. Dá para ver. Logo de seguida, o interesse, a atenção, a avidez com que aguardam que eu comece a sessão da hora do conto. Lá nisso, parecem as crianças com quem estou habituada a desenvolver tais actividades.
E os olhos. Os olhos têm, afinal, o futuro todo lá dentro, são prósperos e cheios de promessas como os das crianças. Os olhos destes amigos séniores são rios de vidas vividas, edificações, são feitos de espera e de sabedoria.
Faço a minha apresentação, breve. Trocamos logo umas impressões sobre as minhas origens familiares e geográficas. Alguns deles conhecem os meus pais.
E começamos a falar sobre a Fábula – do latim “história”, “jogo”, “narrativa”. Não foi nada, mas nada difícil interagir com estes leitores tão especiais; não tardou, estávamos a dizer provérbios sobre animais, a cantarolar antigas cantilenas, a contar histórias com animais dentro. A interacção foi muita até!, como costuma acontecer com as crianças.
As palavras fluíam sem esforço, os risos foram-se soltando, as rimas eram sérias e engraçadas. Era tudo ao mesmo tempo: sério e engraçado.
Escusado será referir a imensa felicidade que sinto por me ter sido proporcionado este encontro. Há muito que anseio, a par com as idas a escolas e jardins-de-infância, por fazer voluntariado de leitura para a terceira idade. Cá está! Esta foi a primeira e abriu com chave de ouro. E não fechou! Ficou logo feita a promessa de voltar.
À despedida, foram passando por mim, uns e outros assumindo as mais variadas reacções. Mas uma das que mais me marcou foi a de um senhor que tinha permanecido durante toda a sessão com um ar sério, compenetrado, atento – agarrou-me o braço direito para me falar em sussurros:
“Volte breve!”.

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