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TANCOS, UMA HISTÓRIA MUITO MAL CONTADA

JOÃO MENDES
Primeiro quiserem convencer-nos que um grupo de pelintras havia entrado num complexo militar por um buraquito na vedação, através do qual fez sair mais de uma tonelada de equipamento, explosivos e munições. A imprensa fez o triste papel a que nos vem habituando nos últimos tempos, validando esta informação, e as redes sociais entraram em ebulição, juntando-se ao coro imbecil que à direita pedia a cabeça do ministro, como se fosse da sua responsabilidade garantir a manutenção dos equipamentos militares. Como se as Forças Armadas não tivessem uma hierarquia e uma estrutura de comando. 
Entretanto, com o regresso faseado do bom senso, algumas pessoas começaram a questionar a exequibilidade de tal façanha, rapidamente se percebendo que a verdade absoluta veiculada era na verdade um completo absurdo. Um grupo de bandidos, por muito bem treinados e preparados que estejam, não entram num quartel vigiado por um buraco na rede, deslocam-se da vedação ao paiol, assaltam o paiol, regressam ao buraco na rede e despacham centenas de quilos de material bélico pelo buraco, onde posteriormente, e uma vez no exterior da vedação, o carregariam num qualquer transporte preparado para fugir da cena do crime, tipo filme de gangsters. 
Eu não estive lá para ver, mas sou pouco dado a fantasias. A história do buraco na vedação é um barrete muito mal-amanhado que só enfiou quem quis. Entre as várias hipóteses já aventadas por aqueles que reflectiram sobre o assunto, entre os quais antigos militares e outras personalidades ligadas directa ou indirectamente ao Exército, existem duas que me convencem, por serem ambas perfeitamente exequíveis. A primeira é a teoria do inside job, que nos diz que os assaltantes tiveram ajuda no interior do quartel, com os cúmplices a abrir os portões, a deixar passar um camião capaz de transportar a significativa quantidade de material roubado, a abrir o paiol e, quiçá, a ajudar a carregar o material para acelerar o processo. 
A segunda hipótese é a teoria do acerto de inventário, que nos diz que, durante anos, pequenas quantidades de material foram sendo subtraídas do paiol, até que, anos mais tarde, um responsável pelos processos logísticos em Tancos decidiu fazer um inventário. Com o resultado a demonstrar um desvio significativo entre o stock informático e o stock real, a conclusão (ou a solução encontrada para uma lavagem colectiva de mãos) foi anunciar ao país a ocorrência de um assalto. Apesar de, a meu ver, menos provável que a hipótese anterior, não me parece uma alternativa de todo descabida, principalmente se considerarmos o grau de desleixo que o caso revelou sobre o quartel de Tancos, com buracos na vedação e um sistema de videovigilância inoperante. 

One way or another, alguém roubou material militar de um importante quartel português com uma facilidade assustadora. Acresce a isto que, num país onde nunca falta dinheiro para renovar luxuosas frotas ministeriais, pagar ajudas de custo principescas e fazer ajustes directos corruptos em dezenas de autárquicas governadas por caciques mafiosos, não parece haver meia-dúzia de milhares de euros para garantir algo tão básico como um sistema de videovigilância, apesar de se gastarem milhões de euros em contrapartidas e negociatas que gravitam em torno das grandes aquisições de equipamento militar que vão sendo feitas, como é o caso dos submarinos, repleto de luvas, corruptos e canalhas que deveriam estar presos. Apesar da importância vital de manter seguro o equipamento militar que, nas mãos erradas, poderá colocar em causa a segurança nacional. O mal está feito, mas a história está mal contada. Que não se perca no esquecimento.

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