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PARÁBOLA DA SABEDORIA (adaptado de um conto das Mil e Uma Noites)

BRUNO SANTOS
Conta a lenda, mas só o Altíssimo sabe a verdade certa, que numa antiga terra de sábios, muito dados ao estudo e ao ensino de todas as ciências, vivia um jovem particularmente erudito e amante da luz do conhecimento. Não se lhe ouvia um queixume sobre a sua sorte e vivia feliz entre os doutos e mestres da sua cidade, com quem mantinha longos colóquios sobre os mais fundos e raros mistérios da existência. Contudo, um desejo havia que o atormentava nas noites longas de insónia, cercado na penumbra do seu quarto pelas estrelas do céu e por antigos códices e tratados de ciência certa, escritos pelos mais altos e poderosos doutores da escolástica antiga. Esse desejo, que tantos homens-mito atormentou ao longo dos séculos, de Prometeu a Ícaro, ou de Fausto a Camões, era uma indomável e urgente vontade de saber mais, sempre mais.
Um dia, passeava o nosso jovem pela orla ajardinada da Academia, absorto em pensamentos a um tempo profundos e elevados sobre o mistério do mundo e dos seres que o habitam, quando se cruzou com a banca de um mercador que ali assentara arraiais para fazer o seu comércio. Vendo o jovem tão distraído com as incógnitas do céu, logo o mercador tratou de o chamar à terra, tentando convencê-lo a comprar um belo e sedoso tule, ornado de preciosas pedras e jóias muito raras, que fora em tempos, dizia o mercador, usado por um rei persa de inigualável fama e poder.
O jovem retorquiu que a única jóia que buscava era a da sabedoria e que nenhuma outra riqueza ou fama lhe alteraria a expressão do rosto.
– Sei como ajudar-te, louco de deus. – disse o mercador.
– Por Seu Amor, fá-lo imediatamente, que me corrói as entranhas esta sede de luz!
– Vive num país longínquo, para lá do fim da Terra, um homem que é o mais sábio e o mais santo de todos quantos possas conhecer. A sua sabedoria, força e beleza suplantam as de todos os homens, de todos os séculos, reunidos. E mais ficas a saber que este sábio, apesar da sua fama e raríssimo mérito, não é mais do que a terceira geração de uma família de ferreiros.
Ouvindo as palavras do mercador, o nosso jovem correu para o seu lúgubre quarto, pegou nas sandálias, na mochila e no cajado, e rumou a todo o vapor para esse país distante, onde viva o poderoso mestre, com a intenção de adquirir a sua ciência definitiva.
Foram quarenta dias e quarenta noites da mais dura caminhada, do vale à montanha, do deserto ao mar, por entre perigos e esforços dignos das mais heróicas fábulas. Mas, finalmente, exausto da viagem mas agradecido ao Altíssimo, chegou são e salvo à cidade do ferreiro.
Rapidamente deu com a oficina do mestre e logo que nela entrou prostrou-se diante dele, com grande humildade e deferência, contando-lhe os sacrifícios por que passara para ali chegar e implorando-lhe que o acolhesse e o ensinasse. O ferreiro era um homem já de alguma idade, tinha um rosto luminoso e tranquilo. Cheio de compaixão perguntou-lhe: 
– Que desejas tu, meu filho?
– Aprender a Ciência! – respondeu o jovem.
O velho ferreiro afastou-se um pouco para ir buscar a corda do fole, regressou com ela e colocou-lha nas mãos.
– Puxa!
O nosso jovem obedeceu prontamente e começou a puxar e a largar a corda do fole, sem parar. Puxou e largou. Puxou e largou. Puxou e largou. Já a noite tinha caído sobre a cidade quando finalmente descansou do duro ofício. Mas no dia seguinte coube-lhe o mesmo trabalho, e nos dias posteriores, puxar e largar a corda, sem parar, puxar e largar, com força e vigor, dia após dia, durante semanas. Meses. Um ano inteiro.
Nesse período reinou absoluto silêncio na oficina e cada um dedicou-se à sua tarefa, que todos a tinham da mesma dureza. Nem os outros serventes, nem o próprio mestre dirigiram uma palavra que fosse ao jovem aprendiz. Não houve um queixume, um murmúrio, um desabafo perante tão violento e pesado trabalho.
Assim se contaram cinco anos.
Um dia, passando pelo suor do rosto as mãos calejadas, o jovem discípulo teve a ousadia de interromper por instantes a sua tarefa de Sísifo e abriu finalmente a boca para falar.
– Mestre! – disse timidamente.
O velho ferreiro parou por momentos e todos os outros discípulos, ansiosos e espantados com a ousadia do jovem, fizeram o mesmo. Um silêncio sepulcral envolveu a oficina, agora suspensa das palavras do nosso jovem discípulo, que durante cinco longos anos puxara e largara, largara e puxara, mudo como a pedra mais bruta, a corda do velho fole.
– Que desejas? – perguntou o ferreiro.
– A Ciência! – respondeu o discípulo.
E o mestre ordenou:
– Puxa a corda!
Sem mais uma palavra, o jovem retomou o trabalho na forja. Foram mais cinco anos em silêncio, sem que ninguém lhe dirigisse a palavra e sem dirigir a palavra a ninguém. Puxar e largar a corda. Puxar e largar. Puxar e largar. De sol a sol, sem descanso, em silêncio.
Quando algum dos discípulos se inquietava com alguma dúvida e precisava de ser esclarecido sobre algum problema, fosse ele de que espécie fosse, era-lhe permitido escrever a pergunta num pequeno pedaço de papel e apresentá-lo ao mestre pela aurora, quando ele entrava na forja. O mestre nunca lia o papel. Deitava-o ao lume ou guardava-o debaixo do chapéu. Se o destino era o fogo, significava que a pergunta formulada não merecia qualquer resposta. Se o guardava no chapéu, o discípulo podia esperar a resposta, que encontraria à noite, escrita a letras de ouro pela mão do mestre na parede do seu quarto.
Passaram-se dez anos.
A luz do poente entrava pelas pequenas jane

las da oficina e desenhava estranhas mas belas formas na pedra do chão queimada pelo anos. A corda do fole ia e vinha como as paredes de um coração exausto. O nosso jovem puxava e largava a corda no final de mais um infinito dia de duro trabalho, quando o velho mestre se aproximou e lhe colocou a mão no ombro.

Pela primeira vez em dez anos, o aprendiz largou a corda.
Fez-se mais sepulcral o silêncio da oficina e pelo rosto sujo do nosso jovem começaram a escorrer espessas lágrimas de alegria. Ficou imóvel no seu lugar, com os olhos fechados por fora mas escancarados para dentro, para o mundo infinito de luz de onde se desprendia o Espírito que sobre si sentia descer, enquanto uma sensação indescritível lhe invadia os músculos e os ossos, tornando-lhe o corpo numa coisa estranha, como algo repentinamente externo, do qual se sentia separar.
O Mestre falou e disse-lhe:
– Meu filho, podes voltar para casa. Regressa ao teu país, para junto dos teus, com toda a Ciência do mundo e da vida no teu coração. Tudo isso é teu porque agora é tua também a virtude da paciência!
Beijou-o na testa e desejou-lhe paz. O jovem regressou para junto dos que amava e viu tudo na vida com uma clareza que jamais imaginara.

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