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CRESCIMENTO ECONÓMICO, DESEMPREGO E BALANÇA DE PAGAMENTOS

RUI CANOSSA
O PIB de Portugal terá registado um crescimento entre 2,8% e 3,2% no segundo trimestre deste ano, face ao período homólogo, de acordo com as estimativas do Fórum para a Competitividade, publicadas na nota de conjuntura de Julho que foi divulgada hoje, sexta-feira, 28 de Julho, dia em que escrevo este artigo.
Apesar de o ponto médio da projeção ser de 3%, esta será das primeiras entidades a admitir um crescimento acima desta fasquia para o segundo trimestre do ano. Para a variação em cadeia (face aos primeiros três meses do ano) a estimativa aponta para um crescimento entre 0,3% e 0,6% em cadeia.
Depois de o PIB ter crescido 2,8% no primeiro trimestre, o crescimento mais elevado em 10 anos, o Fórum para a Competitividade dá como quase certa uma nova aceleração da economia nacional. “Os indicadores avançados já disponíveis praticamente para a totalidade do segundo trimestre confirmam uma nova aceleração – algo que de resto é comum também nos restantes países da área do euro”, refere a nota.
No que diz respeito aos indicadores reais, apenas disponíveis até ao mês de Maio, a “informação é igualmente positiva”, destacando-se a aceleração das vendas a retalho e principalmente das vendas de automóveis comerciais, confirmando ambas o bom ‘momentum’ do consumo e investimento privado”.
Acrescenta que “grande parte do contributo positivo deverá vir novamente do investimento privado e das exportações, que estarão a beneficiar da pujança dos principais parceiros económicos que pertencem à área do euro, e da variação de existências que deverá compensar a queda do primeiro trimestre”. Mas, como veremos mais à frente as importações também estão a aumentar. Para se perceber esta linguagem dos economistas é preciso visualizar o seguinte, o PIB é a soma que resulta do Consumo Público e Privado, do Investimento, público e privado, mais as exportações menos as importações.
Para a totalidade do ano, o Fórum aponta para um crescimento do PIB entre 2,5% e 2,8%, o que também representa uma das projeções mais otimistas entre as entidades que acompanham a economia portuguesa.
“O primeiro semestre deverá ser o mais forte do ano, com o crescimento médio a rondar os 3%, sendo provável que próximos trimestres registem uma desaceleração do homólogo, já que o termo de comparação com o final do ano passado será menos favorável”, alerta o Fórum.
O INE publicará os dados oficiais do PIB do segundo trimestre em meados de agosto, pelo que vamos estar atentos a estas previsões.
Como consequência do crescimento económico, ou seja, do crescimento do PIB, o desemprego tende a diminuir. Aliás, os economistas têm a noção de que só um crescimento do PIB de 2% pode promover o emprego e isso parece ser a realidade atual e oxalá assim continue pois o Instituto Nacional de Estatística reviu hoje, dia 28, em baixa de 0,2 pontos percentuais a taxa de desemprego de maio para 9,2%, o valor mais baixo desde novembro de 2008, estimando para junho uma nova descida para 9,0%. Que não sendo um bom valor já que o número do desemprego que ainda é alto, de haver zonas do país em que o desemprego é ainda um problema grande, do desemprego de longa duração que continua a ser muito preocupante em Portugal e também do problema da precariedade dos novos contratos e baixa remuneração que existe nos novos contratos.
Mas nem tudo é um mar de rosas neste jardim à beira mar plantado. O saldo conjunto das balanças corrente e de capital foi negativo em 447 milhões de euros nos primeiros cinco meses deste ano, o que traduz um agravamento das contas externas de Portugal e que significa também que o país tem necessidade de financiamento externo porque está a viver acima das suas possibilidades.
Nos primeiros cinco meses do ano passado o saldo também era negativo, mas de menor dimensão: 337 milhões de euros. Já nos primeiros quatro meses deste ano o saldo era positivo (823 milhões de euros), quase duplicando o registado no período homólogo.
Maio foi assim um mês negativo para as contas externas portuguesas, que passaram a ser deficitárias, piorando face aos meses anteriores deste ano e contra o mesmo período do ano passado.
A culpa é das importações, já que o agravamento do défice da balança de bens foi determinante para o comportamento conjunto do saldo conjunto das balanças corrente e de capital.
As importações aumentaram 16,3% nos primeiros cinco meses do ano, uma taxa de crescimento bem superior ao registado nas exportações, que cresceram 13,3%. O resultado traduz-se num agravamento do saldo da balança de bens para um valor negativo de 4.437 milhões de euros, que compara com -3.329 milhões de euros no mesmo período do ano passado. Alguns dizem que é um mal que vem do facto de os portugueses terem melhores rendimentos.
Na balança de serviços o saldo continua a ser positivo e até aumentou, para 4,803 milhões de euros, mas insuficiente para compensar a quebra nos bens. 
O aumento do excedente da balança de serviços observado em maio foi insuficiente para compensar o aumento do défice da balança de bens. Até Maio, a balança de bens e serviços registou um excedente de 366 milhões de euros, menos 531 milhões de euros do que no período homólogo. 
Somando bens e serviços, as exportações cresceram 13,4%, também abaixo do incremento registado nas importações (15,7%). 
Tal como se tem verificado nos últimos meses, a contribuir para a evolução positiva da balança de serviços continua a estar a rubrica “Viagens e turismo”, que aumentou para 3.070 milhões de euros, o que representa um aumento de 607 milhões de euros. 
Também a penalizar o saldo conjunto esteve a balança de rendimento primário, que atingiu um défice de 2.299 milhões
de euros, mais 186 milhões de euros do que no período homólogo “influenciado pelos dividendos pagos ao exterior em maio”.
A compensar, o excedente da balança de rendimento secundário aumentou 409 milhões de euros, “em resultado da variação das transferências correntes recebidas e da diminuição da contribuição financeira paga à União Europeia”.
NOTA DO AUTOR
A balança de pagamentos regista as transações que ocorrem num determinado período de tempo entre residentes e não residentes numa determinada economia. Essas transações são de natureza muito diversa encontrando-se classificadas em três categorias principais:
– balança corrente, que regista a exportação e importação de bens e serviços e os pagamentos e recebimentos associados a rendimento primário (ex: juros e dividendos) e a rendimento secundário (ex: transferências correntes);
– balança de capital, que regista as transferências de capital (ex: perdão de dívida e fundos comunitários) e as transações sobre ativos não financeiros não produzidos (ex. licenças de CO2 e passes de jogadores de futebol);
– balança financeira, que engloba as transações relacionadas com o investimento, nomeadamente investimento direto, investimento de carteira (ex: ações e obrigações), derivados financeiros, outro investimento (ex: os empréstimos obtidos para pagar a dívida) e ativos de reserva. Esta balança é a contrapartida do saldo conjunto da balança corrente e de capitais. Ou seja, se o saldo conjunto da balança corrente e de capitais é negativo, como é o nosso caso, a balança financeira tem um saldo positivo, já que a balança de pagamentos é um quadro de contas de soma zero.

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