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POUCOS SABEM O QUE É A FILOSOFIA

REGINA SARDOEIRA
Entre os homens, muito poucos sabem o que é a filosofia. E contudo há professores de filosofia, alunos de filosofia, filósofos e imensos volumes que pretendem dá-la a conhecer. O certo é que, todos eles, professores, alunos, filósofos, manuais, na sua tentativa, arrogante ou ingénua, de serem os arautos da filosofia, nada elucidam; e o que vão propalando aos quatro ventos não chega para tudo o que, implicitamente, decorre sob o nome de filosofia. 
Fui estudante de filosofia e a minha função, enquanto professora, centrou-se na filosofia. E no entanto, quer enquanto estudante, quer enquanto professora, senti, invariavelmente, que o que me ensinavam e o que eu própria tentei ensinar ocultava a verdadeira filosofia, mascarava-a de um modo grotesco, dava um testemunho superficial, quando não erróneo, sobre o que, de facto, é a filosofia. 
Começando pela palavra – filosofia – momento solene em que o professor julga romper o enigma, analisando a sua linha etimológica, creio firmemente que muitos julgam perceber, ou ter percebido, o que o termo oculta; e, apesar disso, fazerem, tão somente, um pseudo – relato erudito de cariz filológico que em nada desoculta a verdade significante do conhecimento que o termo enuncia – ou pretende enunciar – é vã elucubração. 
Dizemos então aos alunos, como outrora nos disseram a nós, que a palavra tem origem grega ou, melhor ainda, que continua a ser grega, pois a única alteração que sofreu tem a ver com a diferença no alfabeto e não com o modo como se articula e pronuncia. E continuamos, explicando, que na palavra residem duas outras, essas, sim, linguisticamente diferentes, consoante o código de cada país, e que são, philos (φίλος) e sophia (σοφία) sendo que a primeira é uma derivação de philia (φιλία) que significa amizade, amor, e a segunda, sabedoria. Esta análise revela-nos o seguinte conteúdo: a filosofia é o amor pela sabedoria e o filósofo, o amigo do saber. 
Extraordinária e portentosa tirada com que os “doutos” adornam, vagamente, as primeiras páginas dos manuais de introdução à filosofia e que os alunos, vagamente, apreendem, mesmo não assimilando inteiramente o que significa, de facto, “amar a sabedoria” .
 
Conta-se que Pitágoras terá sido abordado por uma importante personagem do seu tempo (Grécia, século V a. C) designando-o como sábio (σοφός: sofos), porque tal era a palavra usada para classificar os homens que se dedicavam ao estudo das ciências. Porém, Pitágoras terá recusado o epíteto dizendo: “Eu não sou σοφος (sophos) mas sim φιλόσοφος (philosophos), eu procuro e amo a sabedoria, pois só aos deuses é possível a sua posse.” 
E depois, explicamos aos alunos que esta foi uma declaração de humildade, que Pitágoras pretendeu assumir-se, modestamente, como aquele que busca a sabedoria e não aquele que a detém. Desse modo atribuímos ao saber da filosofia um carácter de incompletude, já que filosofar é procurar o saber e nunca lograr atingi-.lo – porque os deuses é que sabem. Ademais acrescentamos que a filosofia se distingue das ciências, que não é uma ciência, já que estas investigam e formulam leis rigorosas, enquanto a filosofia, simplesmente procura, ama o saber – sem chegar nunca a atingi-lo. 
Ora eu declaro que, quem assim fala, hoje, com o fito de definir filosofia, perante adolescentes ou jovens ou quem quer que seja, não faz a menor ideia do que está a dizer. 
O objecto do amor do filósofo é a sabedoria. Muito bem. Mas o que é a sabedoria? Para podermos amar alguém necessitamos de saber quem ou o que é o alvo do nosso amor; para que o nosso amor faça sentido é necessária uma dose considerável de acção ou de esforço, não basta contemplar à distância, porque o amor é uma prática que aspira à proximidade com aquele que se ama. 
Eu não sei se a sabedoria será um ser vivo, mas reconheço que tendemos a orientar o nosso amor de humanos para outros humanos e ainda que esse amor gera múltiplas interacções, com o fito de um acrescentamento progressivo até à presumível fusão. Logo, só pode compreender-se o amor à sabedoria, nesta dimensão eminentemente prática, entre partes que mutuamente se procuram tendo por alvo a presumível coincidência do ser. 
Será este, então, o objecto da filosofia e, por inerência, o trabalho dos filósofos? 
Vejamos. Quem antecedeu os filósofos, na tradição grega? Quem eram os sábios de que, aparentemente, Pitágoras quis demarcar-se? 
Chamavam-se “físicos” e, como a palavra indica, φύση: Fusi = natureza, estudavam o mundo, observavam os fenómenos, tentavam compreendê -los e, a partir dessa compreensão, perceber a origem do mundo, da vida, dos seres naturais, do homem. Analisando e lançando o olhar sobre a terra e para os céus, foram encontrando uma multiplicidade de respostas, cuja actualidade continua a deslumbrar-nos, porque, vários milénios depois, a nossa ciência não foi muito mais longe. Temos a técnica é certo, meios de observação e experimentação que eles não possuíam: por essa mesma razão, e olhando bem de frente os resultados dos nossos conhecimentos científicos, precisamos de admirar esses gregos de antes do século V a. C – porque a eles devemos muito do nosso saber. 
Os físicos eram, pois, cientistas da natureza, buscavam o elemento primordial que poderia explicar a génese de todas as coisas; os filósofos que surgiram depois negaram o valor dessa pesquisa ambiciosa, que se propunha desbravar céus, terra e mar e voltaram os olhos para dentro de si, pondo a razão humana no centro da investigação. E, pior ainda: recusando a prerrogativa do conhecimento total, por ele ser apenas acessível aos deuses, retiraram a esse amor à sabedoria, abstracto e inconsistente, o estatuto de ciência. 
Por causa deles, os filósofos, invariavelmente, detiveram-se em questões inefáveis, metafísicas, irrespondíveis como são por exemplo: Quem sou eu? Qual o sentido da vida? De onde venho? Para onde vou? 
Nenhuma resposta conclusiva foi, efectivamente, dada acerca destes problemas (falsos problemas, digo eu) e nunca será. Do mesmo modo, a filosofia, tal como a conhecemos, nada de fundamental descobriu ou descobrirá acerca do conhecimento e do modo como se obtém, acerca das ideias e de onde as retiramos para elaborarmos pensamentos, acerca das palavras e do modo como chegamos a aprendê -las. Tudo o que corre sob a designação de filosofia e que, ou aprendemos ou ensinamos é, não duvidemos um imenso caudal de teses contraditórias, entre si, que a nada conduzem de valioso por maior força argumentativa de que sejamos capazes. 
O que falta ainda para que a filosofia (já que não temos, por enquanto, outra palavra) seja, efectivamente, a ciência do homem, por excelência, é estudar a fundo a mente humana – e não apenas humana porque existe actividade mental por toda a parte. Falta-lhe o entendimento profundo da energia que percorre os ares e se acoita num simples grão de areia. Falta-lhe regressar à física e à fisiologia e à astronomia e a tudo quanto suporta e justifica o universo que nos permite, simplesmente, ser. 
Poucos sabem o que é a filosofia, pois continuam a insistir, século após século, na sua especificidade em relação às ciências, retirando-lhe tal estatuto e remetendo-a para a margem: uma margem na qual não existe, de facto, nenhum terreno que valha a pena explorar.

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