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METAMORFOSE

DIANA RAMALHO
“Eu sempre a vi a pequenez, a humildade e a inocência que o teu sorriso triste continha, quando te procuravas no meio de todos e poucos te percebiam as dúvidas. Eu amava-te.
Desconfiavas de ti e dos outros porque a vida te traía frequentemente e a única aceitação que recebias era a minha presença, o meu amor.
Somos todos um percurso, uma consequência, boa ou má, do tempo e eu sabia-o, aceitava-o e apreciava-te, como quem aprecia o início de algo grandioso.
Até que lhe foste conveniente e, repentinamente, te convinha rejeitar a tua origem, esconder a tua humildade e disfarçar as unhas sujas de terra do campo que te alimentou.
Até que, repentinamente, o desejo de estatuto e a submissão a tudo o que repelavas, te fez rejeitar-me. Eu ainda te amo.
A tua mãe.”
A metamorfose é um processo que “envolve uma transformação rápida e conspícua de uma larva para um estágio larval subsequente “.
Se há coisa que me incomoda é o número infinito de borboletas que esvoaçam por aí, ignorando o facto de já terem sido larvas, como toda gente, ou, na maioria dos casos, não passarem disso, embora se esforcem para o disfarçar.
Recuando alguns anos, o dinheiro arrastava consigo um certo poder e superioridade, o que podia ser injusto, mas, em certa medida, compreensível. Já nos tempos que correm, a superioridade está tão só na aparência.
Passo a explicar a evolução:
Não importava ser-se bom, bastava ser-se rico. Agora, não é preciso ser-se rico, basta parecer-se.
Traz vantagens, sobretudo económicas, que se aliam a uma falta de carácter, cultura e decência que me impressionam.
Mesmo não querendo generalizar, a verdade é que todos mudamos e crescemos, numas coisas ou noutras, e, a infeliz realidade é que já pouco valor se dá ao velho pensamento de que “tão importante como o lugar para onde vais, é aquele de onde vens.” Desconfio que tudo se deve ao facto de as borboletas virem de um casulo, aquele tal nome associado a lagartas, muito embora não o compreenda, tendo em conta que ninguém nasce já vestido.

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