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AS OSTRAS DA GUINÉ

JOANA BENZINHO
A estrada de Bissau até Quinhamel faz-se em meia hora de alcatrão ladeado por cajueiros, mangueiras e muitas crianças que brincam na beira da estrada, com brinquedos de improviso, enquanto as mães andam nas lides domésticas.
Aqui chegados, entra-se numa estrada com frondosas árvores que lhe dão sombra e seguimos até um dos muitos braços de rio que aqui existem. Escondida entre a vegetação, encontramos uma velha casa caiada, com um pequeno pátio com mesas e cadeiras estrategicamente colocadas nos sítios onde o sol é filtrado pelas árvores. 
É aqui que encontramos o Nelson ou o filho do senhor Aníbal para os mais “antigos”, e as suas ostras. Para quem não conhece, a Guiné Bissau guarda não só um dos maiores segredos naturais – o Arquipélago dos Bijagós – como pequenos segredos gastronómicos de provar e chorar por mais. País de enormes recursos piscícolas e farto em frutas com um sabor único, como o caju, as mangas ou papaias, a Guiné-Bissau tem nas raízes dos seus tarrafes, um santuário de ostras de sabor excepcional. Nestas águas salobras, agarradas as raízes que ficam submersas ou expostas conforme as marés, crescem as ostras que são apanhadas pelas mulheres de Quinhamel e depois vendidas aos sacos de 50 kg ao “preço da chuva” e que o, Nelson nos serve num ambiente muito singular. 
Estas ostras são passadas por breves minutos num forno de lenha, que as abre e deixa semi cozinhadas com o forte calor que apanham. Chegam-nos à mesa em tabuleiros de alumínio, acompanhadas apenas de um molho de limão com malagueta, e que vão sendo repostos à medida que as cascas vão caindo no balde estrategicamente colocado entre as cadeiras dos comensais.
Aqui não há luxos, há sabores inesquecíveis numa paisagem soberba. A acompanhar as ostras uma cerveja estupidamente gelada completa a refeição, que é circundada pelos gritinhos animados das crianças a nadar no canal quando a maré está cheia ou a jogar à bola em período de maré baixa.
Ali bem perto andam os “jugudis”, os abutres guineenses que atacam um monte das cascas de ostra de anteriores clientes, retirando-lhe os restos que despejamos para o balde. Em Bissau diz-se com graça que estes abutres são os melhores funcionários de limpeza da Câmara Municipal, e aqui fica claro que cumprem o seu oficio na perfeição. As cascas ficam limpas de qualquer vestígio.
Estas ostras de que falo aqui hoje são bem diferentes da nossa ostra se mar. Em tamanho e em sabor. A maioria delas tem um tamanho médio/pequeno mas por vezes surgem ostras de tal forma grandes que, saídas do forno, parecem autênticos bifes. Comem-se no tempo seco, evitam-se na época das chuvas que aumentam os caudais dos rios e canais e enchem as ostras de lama.
Entre um tabuleiro e outro, o Nelson abeira-se da mesa e deixa tudo de sorriso na cara com uma das suas abundantes anedotas. Almoça-se tarde e ali se fica até ao cair do dia. Não há pressas, o tempo pára naquele cantinho onde o sabor da vida se encontra no recheio de uma ostra. Mesmo se por ali não se ouça dizer que estas tenham pérolas guardadas lá dentro.
Regressamos a Bissau quase sempre ao pôr do sol com a barriga e a alma cheias. São estes pequenos e simples prazeres, que dão um gosto tão especial à Guiné-Bissau e que nos fazem querer sempre voltar.

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