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EM NOME DA HUMANIDADE: LIBERTE-SE!

TÂNIA AMADO
Imagine-se ser adorado pelo seu gato, realizado profissionalmente, dormir as horas necessárias, viajado, com uma boa casa, ser titular de recheadas contas bancárias, condutor de um barco e portador de um carro de sonho.
Imagine-se a chegar a casa, colocar as chaves à entrada, passar a mão na cabeça do gato que o recebe à porta; a entrar na cozinha e beber um copo de água; a abrir o frigorífico e encontrar: iogurtes, queijos, cervejas e fruta; a dirigir-se ao quarto e vestir a roupa desportiva, sem reparar nas mensagens no atendedor.
Imagine-se a sair de casa e, já a correr, a cruzar-se com os vizinhos que o acenam a sorrir enquanto devolve a cortesia. De corpo saudável, corte de cabelo moderno e uma fotografia de perfil emblemática em cada canal social onde é conhecido por ser o homem mais esperto por nunca se ter entregue à rasteira matrimonial. Quando volta a casa troca de roupa e vai ao bar da esquina comer qualquer coisa, onde o recebem com grandes elogios e a mesa posta.
Imagine-se a voltar para casa, acompanhado com alguém que dá conta que pode descansar um pouco ao seu lado mesmo sem saber o seu último nome.
E os dias continuam assim: às vezes sai e diverte-se, outras fica pelo jardim na janela da internet.
Com o tempo percebe-se de que a casa continua vazia, as mensagens continuam a serem o mesmo tipo de convites para fazer mais do mesmo e com pessoas que mal sabem, ou se interessam, verdadeiramente quem é.
Imagine-se a ser convidado para uma festa de uma família singela, onde existem debates de ideias, distribuição de tarefas, divisão de gastos, crianças, cão e gatos. Observa que quando eles se chateiam tratam-se pelo primeiro e segundo nome. Falam dos seus dias, desabafam os medos e riem de banalidades. Os miúdos jogam à bola enquanto os adultos grelham os espetos. Uns comem peixe, outros carne e ainda há quem fique apenas pelos verdes. Era um lindo sábado e, por isso, terminam de madrugada à volta da mesa de jardim a olhar a lua. As crianças voltam para casa com a roupa suja, os adolescentes de cabelos despenteados, os adultos contentes de tantas conversas trocadas.
Imagine-se a achegar a sua casa abrir o seu diário e escrever: “aos 55 anos e descobri que não valeu de nada tanta indecisão, insegurança e medo. A indecisão de me apaixonar. A insegurança de não poder vir fazer o que quero. O medo de não poder voltar a andar em casa nu ou de voltar a sofrer desapaixonado. Jamais tinha pensado que entre nascer, e morrer, sozinho é o intervalo para andar acompanhado. Hoje não há homem que reclame da família que não inveje só por não ser eu.”

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