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DESTRUIDORES DE FUTUROS

RAUL TOMÉ
Eu sou a Joana. Sempre adorei a praia, as férias no Algarve com os meus pais e recordo bem e com alegria toda a minha infância até pelo menos aos oito anos de idade.
Adorava passar as tarde na praia a fazer castelos de areia, a brincar com baldes, pás e ancinhos. Sempre adorei os fatos de banho coloridos que a minha mãe me comprava na boutique que ficava em frente à minha saudosa escola.
Recordo o cheiro a sardinhas assadas, o sabor doce e cremoso dos gelados caseiros e ainda sinto na boca o rebelde e desconcertante estalar do açúcar das bolas de Berlim seguido das palavras de desaprovação do meu pai por chupar os dedos no final, como se o mar estivesse desprovido de água onde os pudesse lavar.
Não menos prazeroso é recordar as viagens à terra dos meus pais durante as férias da Páscoa.
Sentia os beijos picantes da minha avó, de quem tenho tantas saudades, atravessarem as minhas bochechas como se fossem agulhas. Os meus pais chegavam a casa com a bagageira cheia de vinho, folares, chouriços e de bolachas de manteiga feitas pela minha tia Filomena, que nunca casou.
Com enorme pena minha, não cheguei a frequentar a universidade, logo eu que sonhava ser médica. Nunca casei nem tive filhos.
Mas, de toda a minha feliz infância, lembro-me apenas de um episódio terrível. Voltávamos para casa, depois de mais umas férias na aldeia dos meus pais.
Ouvíamos música alto e cantávamos a plenos pulmões a Cinderela de Carlos Paião. Lembro-me de como o meu pai orgulhoso, como em tantas outras viagens, interrompeu a cantoria e nos disse: “olhem bem para esta máquina, vamos a 200 km e parece que vamos parados”.Depois tudo ficou negro. 
Eu sou a Joana. Se fosse viva teria 38 anos e, seguramente, seria médica, casada e mãe de duas meninas.

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