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OS BRUXOS DA GUINÉ

JOANA BENZINHO
Cheguei a um casebre sem luz, como a maioria das casas guineenses, com a água em baldes para doméstico, nu populoso e pobre bairro de Bissau.
Não há placas identificativas, não há publicidade em rádios ou jornais, só quem conhece ali consegue chegar. E havia muita gente sentada no chão e nos banquinhos de madeira que seguiam o curso da sombra, quando esta existia. O calor era abrasador, como quase sempre em Bissau, mas nada parecia afastar a clientela. Gente simples, mas também gente bem “da praça” (a elite urbana de Bissau) ali vai. Estou-vos a falar de um “Djambacós” ou, como está agora na moda falar por cá, de um Bruxo da Guiné. Não há muitos, ou se calhar até há, para as mentes menos crentes e desconhecedoras do animismo que habita nos guineenses. Para eles, os que acreditam, existem tão só os que foram escolhidos, os que são abençoados pelos seres divinos para fazer a ponte entre o Irã (a entidade divina) e nós na vida terrena.
Quem lá estava apertou-se para me dar espaço no banco, completamente indiferentes ao facto de ser a única branca por aquelas paragens, aliás, a primeira branca que foi até aquele homem de reconhecidos poderes, segundo me disse ele mais tarde na nossa conversa. A senhora do lado, de trato fácil e desejosa de meter conversa para matar o tempo, disse-me que tinha acabado de chegar de Portugal, onde vive, para vir tratar de pedir ao “Djambacós” para interceder por ela nuns problemas pendentes pois ele era o melhor dos melhores em tudo o que era de caracter material. Mas, alertou-me, para os males de amor, o melhor era um outro de quem me deu o telefone. Via-se que falava com conhecimento de causa. Perguntou-me ao que ia. Tive receio de lhe dizer que ando a recolher dados sobre o que fazem por me atrair esta fé de quem se diz investido de poderes sobrenaturais, e de quem ali vai, como ela, vinda de tão longe, para pedir ajuda aos irãs. Podia ser mail interpretada. Cautelosamente, disse-lhe que ia saber da vida, sem problema nenhum em especial. Não perguntou mais nada, apesar de me parecer ter achado exótico alguém ir ali sem nenhum problema concreto para resolver. As horas iam passando, foram várias, até chegar a minha vez. Alguns, entravam para lá da cortinha que servia de porta, com galinhas na mão, e saiam largos minutos mais tarde com ar feliz e confiante, agarrados a um saquinho com mesinhas ou a umas garrafinhas de água recheadas claramente com outro liquido qualquer.
Com o coração a bater mais rápido, tirei as sandálias e, na minha vez, entrei descalça numa sala pequena, demasiado quente e escura, onde tive dificuldade em me habituar ao breu e identificar onde se encontrava a pessoa que me esperava, sentada ao um canto no chão, de pernas cruzadas e com um pano tradicional a envolver-lhe o corpo da cintura para baixo. Cumprimentei-o e disse-lhe ao que ia. Andava a fazer recolha para um estudo sobre as tradições animistas na Guiné-Bissau e por me dizerem ser ele um dos melhores, estava ali para lhe pedir que me falasse dos “trabalhos” que fazia. E eram seguramente muitos. Ao seu lado, ardia uma pequena fogueira onde ainda se viam entranhas de galinhas e vestígios de sangue no chão e num pequeno caldeirão, restos de algo que não consegui identificar escorriam de um caldo que fervia. Na parede, um cabo de madeira terminava naquilo que parecia ser uma mão de macaco embalsamada encontrava-se pendurado ao lado de um corno que tresandava a álcool, talvez o cálice onde bebia a aguardente, muito típica em determinadas cerimónias animistas. Disse que podia falar, mas não podia contar tudo. E não contou. Confessou-me que passava muito tempo no mato, na zona norte do país, a falar com os irãs e a recolher as ervas que depois transformava em mesinhas para curar o que lhe aparecia ali – doenças, males de amor, males de inveja, problemas patrimoniais etc – e que quando estava na cidade, cumpria o desejo divino de ajudar os outros. Estes pagavam o que entendiam, muitos deles muito pouco tendo em consideração a pobreza endémica do pais, e caso se cumprisse o desejado deveriam voltar para lhe dar uma recompensa. Os “trabalhos da terra”, como lhe chamou, são feitos por ele de noite ali naquele casebre ou no mato, onde passa dias a fio, enquanto conversa com os irãs. Mas antes de qualquer coisa, há que matar uma galinha e ler-lhe as entranhas. Se estas saírem brancas, o caso tem resolução, a pergunta para a qual se deseja uma resposta é positiva, o amor que se deseja há-de vir, mais cedo ou mais tarde. Porque é assim o trabalho da terra. E é com pose firme que acreditam e defendem os poderes energéticos que correm pela Guiné. Fiz mais perguntas do que recebi respostas. A muitas das questões correspondeu o mutismo de quem tem que guardar para si o que é sagrado e não partilhável com o comum dos mortais, no caso eu. A conversa já ia longa, demasiado longa para o tempo de consulta que o vi dar aos outros e ia despedir-me quando me pediu o meu telefone e nome completo. Escreveu-o num papel, teve ali um momento de transe onde ia cantando uma ladainha imperceptível e começou a debitar uma serie de afirmações que até nem eram de todo trivalidades sobre mim. Alertou-me para alguns problemas à vista, preocupou-se com a necessidade de me proteger de um ou outro perigo. Não me deixou sair sem um pó que deveria soprar ao nascer e ao por do sol para levar os males e os malvados para longe de mim. E assim vim embora, com um saquinho como todos os outros, que não tive oportunidade de soprar pois regressava no dia seguinte e decidi não viajar com aquele pozinho cuja composição desconhecia. No dia seguinte, bem cedo pela manhã, ligou-me a dizer que leu as entranhas de uma galinha e que eu estava protegida, tinham saído brancas. E que concluía que eu lá tinha ido por bem, pelo que podia voltar se quisesse mais pormenores dos seus poderes e de como os usava em beneficio dos outros. Que alívio!
São estes os “Djambacós” da Guiné-Bissau, os “bruxos” de que hoje em dia tanto se fala na imprensa portuguesa por aparentemente terem sido contratados pelo Benfica e pelo Porto para lhes darem bons resultados e campeonatos. São fruto de um país com uma comunidade fortemente animista, apesar de metade da população professar a religião muçulmana. São os homens que no quotidiano, decidem muito da vida de quem os consulta e que intercedem junto dos Irãs ( entidades divinas representadas por exemplo por árvores, serpentes ou estátuas) para que determinados objetivos se concretizem. Se acredito? Acima de tudo tenho um enorme respeito por quem acredita e um enorme prazer em conhecer esta riquíssima tradição guineense. Os homens do futebol parecem acreditar e com resultados à vista.

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