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CRÓNICA. CINEMA. CULTURA

JOÃO PINTO
Uma vez o Woody Allen disse naquele que é um dos seus clássicos que sentia que a vida era dividida entre o horrível e o miserável e que eram essas as duas categorias, onde o horrível são os casos terminais, e os cegos e aqueles que jamais voltarão a andar, e que o miserável são todos os outros, e que nos devíamos dar como gratos pela sorte de nascermos miseráveis.
Nascemos em berços estranhos onde se ecoam notícias de um “homem” laranja, de mísseis e de diplomacias bélicas que retiram qualquer sentido diplomata da expressão em si. Mais do que nunca existe um bombardeamento de informação que alude a massas mudarem de opinião conforme a subserviência que é pixelizada seja onde for, como for e sobretudo a quem convém. Não usamos os recursos para fundamentar mas sim para alimentar uma opinião mal formada acerca de tudo o que nos rodeia. É estranha a geração que é alimentada por sonhos fabricados por aqueles que com eles irão lucrar. Ainda mais estranho é perceber que esta alienação não atinge uma geração mas sim um mundo delas. Sem esquecer o mundo daqueles que diariamente se contrariam à formatação e que contribuem para tanto que para o povo parece tão pouco. Esses que são os esquecidos, pois não têm em mente aquilo que parecem ser os pontos fulcrais no final do dia: lucro e luzes. É fácil esquecer que essas luzes conseguem cegar qualquer tipo de liberdade que supostamente nos é dito termos. É por isso que é importante projetar uma visão abrangente sobre tudo o que nos envolve. E sobretudo, ser capaz de olhar para além do panorama geral. Ser capaz de olhar para o que está à nossa frente da nossa própria forma, por mais promiscua ou insignificante que possa parecer, se há coisa que o cinema nos pode ensinar, é que nada é insignificante se for olhado da forma certa. Este texto, crónica ou o que quer que seja não vem a propósito de cinema, vem a propósito de cultura, e do quão desprezada ela é. Não falando de dinheiro ou de percentagens mas falando da mentalidade perante o cultivo do nosso futuro.
Começava eu a redigir sobre o Woody Allen. Lembro-me de ver o Manhattan pela primeira vez e como qualquer filme do Woody Allen me fascinar por o quão comum qualquer linha de diálogo poderia parecer não fosse ela escrita por quem foi. E que qualquer beco de Nova Iorque tinha a sua história, o seu traço e a sua própria vida. Pois não se tratavam de diálogos comuns, mas sim de temas comuns, do nosso quotidiano. Pequenas conversas e pequenos momentos que se projetam ao comportamento do humano. E pouco a pouco pela história do cinema e francamente de qualquer forma de arte se percebe que se pode tornar o comum em matéria merecedora de ser apreciada, desde que não caia no erro de ser vulgar. O comum e o vulgar, o banal são diferentes. E cabe-nos a nós perceber isso. Perceber que a nossa pequena contribuição para um mundo voraz está na facilidade inquietante do atrevimento de pensar. Pensar em desassossego. Transformar o pouco que está à nossa volta numa ideia que virá ou não a promover-se perante todos nós. E se tal não acontecer, promover-nos a nós mesmos. Quer seja o perfeccionista Kubrick com a sua inquietude na representação do comportamento humano e nas odisseias do mesmo, o colorido Wes Anderson com histórias que fazem trazer ao de cima todos os elementos por vezes esquecidos pelo público na sétima arte, o peculiar David Lynch cuja imaginação será apenas compreendida pelo próprio, seja o cinema feito onde for, como for, de que ano, género ou temática abordar há algo em comum que se retira de qualquer obra, e é de que qualquer tema, qualquer ideia, sem pensar no tamanho da mesma, é um contribuinte para aquilo que enquanto humanos vamos tentando fazer, ou pelo menos deveríamos. O afastamento da ilusão de que tudo o que está à nossa frente é o que acontece. Pois bem, nós vê-mos uma fração imaginária daquilo que acontece à frente de uma câmara. Não nos ousemos a esquecer o que está por trás dela. Vamos praticar a ousadia de nascermos miseravelmente capazes.

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