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VENHO DE LONGE

REGINA SARDOEIRA

Venho de longe

o perto nada me diz
por ele desvairo
por ele me arrasto
por ele rodopio
em circunvoluções de inépcia
sim venho de longe
das longínquas estrelas
(talvez desvanecidas)
dos fundos oceanos
(decerto enegrecidos)
do alto das montanhas
(se calhar mergulhadas
em névoa entretecida)
o perto
não tem poder para agarrar-me
nele me vou perdendo
(sombriamente)
como um eco de mim
um simulacro de rosto
uma sombra
uma esfinge
vou para longe
nessas sendas ignotas
(até de mim própria)
em desvios agrestes 
por rochedos inóspitos
e areias movediças
arrastarão meus passos
o perto
causa-me náuseas
trepido de ansiedade
bocejo de angústia
(o perto)
tem o travo das lágrimas
e o gosto do sangue
e arde
e dói
como espartilho gasto
venho de longe
(porque sou de longe)
vou para longe
(porque é lá que pertenço)
e quando estou perto
(neste perto de aqui)
é o longe que anima
os meus passos
de agora

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