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A PRIMEIRA VEZ… LEMBRAS-TE?

TÂNIA AMADO
A primeira vez que conduzi um carro foi como se tivesse subido ao pódio, ainda que tenha ficado em último lugar. Foi bastante mau, confesso. O carro desligou-se minuto a minuto. Cada vez que parava num semáforo ligava o carro ainda com a segunda engatada. Não conseguia dar atenção a tudo ao mesmo tempo: piões, sinais e manetes do carro. 
O meu ex-companheiro continha-se, calado e a respirar mal. O carro era dele e zerado (como dizem os nossos irmãos brasileiros). 
Tirei a carta em 45 dias. Na época ainda era híper-eléctrica, acordava com uma energia capaz de abanar o mundo. O suficiente para ter aulas de manhã e à noite após o trabalho.
O facto de o meu companheiro ter ficado com a carta suspensa por três meses foi o combustível premium da minha motivação.
Dia 13 de Agosto fiz o exame de condução às 7h30 da manhã. Cheguei a casa às 8h e ainda no duche, antes de sair para trabalhar:
Eu – o teu carro está à porta?
Ele – (silêncio)
Eu – mor…?
Ele – sim. (diz ele, de voz meio esganiçada)
Eu – fixe, queres que te leve ao trabalho?
Ele – (silêncio)
Eu – ouviste?
Ele – queres mesmo levar o carro já hoje?
Eu – sim.
Ele – vais apanhar muito trânsito. Se calhar seria melhor conduzires mais logo…
Eu – ok. Se preferires podes ir com o teu colega.
Ele – Não, não! Pode serrr…
Meia hora depois despedi-me dele, pelo retrovisor, ainda de mão no ar a acenar com um “até logo”. Bloqueado, suado e a meio a tremer.
Dentro de um carro a gasolina. de embraiagem bastante baixa, em plena segunda circular entupida de trânsito e com os condutores maldispostos a buzinarem cada vez que eu deixava desligar o carro, lá cheguei inteira ao trabalho. 
Imagino que o meu trauma não tenha sido menor do que o do meu excompanheiro, nem da minha vitória por ter conduzido o carro primeiro que ele. 
A primeira vez, seja com o que for, pode ser uma atrapalhação. Raramente ser a melhor. Pode saber a pouco, ser desconfortável, ficarmos nervosos e estranhos. É expectável saímos com a sensação de que fizemos tudo mal.
Afinal, a primeira vez é o nosso desconhecido a lidar com algo que desconhece. Há quem chame isto a adrenalina de saltar fora da zona de conforto. Há quem fique viciado nela, tal como no primeiro café da manhã.
Se é apenas a primeira de tantas. Se é a que menos usufruímos. Se é a que menos fizemos bem – porque é que é a que melhor registamos? 
Recordem-se do vosso primeiro dia de aulas, de trabalho, paixão, carro, casa, filho, da saída à noite … é a que mais pormenor conseguem descrever?
Terá a ver com a experiência em si ou com a motivação que nos levou a ela? 
Ou ambas?
Podemos repeti-la por ter sido bom ou não por ter sido melhor do que esperávamos. Podemos não repetir por ter sido mau ou repetir por sabermos que pode ser melhor.
Partindo do pressuposto que é algo saudável: a motivação poderá ser o medo de falhar?
Precisamos de rir mais, dormir melhor, comer menos, perdoar mais, enfrentar mais os medos e sermos menos patetas, para sermos mais felizes e experientes.

Arrisque a descobrir-se mais!

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