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O MEU GATINHO TRIPÉ

MARIA AMORIM
O meu Tripé tem três pernas, por isso se chama Tripé. É um gatinho ainda muito pequeno, corre, pula e salta e é um gatinho muito feliz. Sobretudo é a prova viva que a linha que separa a vida da morte é muito ténue e a vida é um presente que nos é dado embrulhado em muita sorte. Então, como apareceu o Tripé na minha vida? Apareceu trazido pela minha filha que o encontrou numa valeta e ele estava tão quieto que ela pensou que ele estava morto, mas não teve coragem de seguir em frente sem ir ver como estava, e chegando-se para ele viu que ele não estava morto, mas tinha uma patinha muito ferida e nem se mexia com as dores. Já não teve coragem de ir embora e levou-o com ela. Trouxe-o para casa numa caminha improvisada numa caixa de cartão. Quando eu vi aquela coisinha tão pequenina, mal tinha dentes, toda pretinha, com uns olhos enormes, peguei nele ao colo para observar a pata e tive um mau pressentimento, aquela pata não tem salvação possível, parece estar em péssimo estado, com a articulação toda esmagada. Soube logo que ia ficar com ele, apesar de já ter dois gatos e liguei ao veterinário, era domingo à tarde. Marquei para o dia seguinte, fiz-lhe uma tala para a pata, para minimizar as dores e uma papa com a ração dos gatos da casa para ele ter que comer. Quando vi a sofreguidão com que comeu tudo e depois explorar a caixa onde o coloquei a arrastar a pata atras dele soube que ele era um lutador. Limpei-o, estava cheio de pulgas e de lixo, deixou-me cuida-lo docilmente, deitei-o a dormir e pensei, amanhã logo se vê, ainda com uma pequena esperança que ia ficar tudo bem com a pata dele. Quando o veterinário o observou, chegou à conclusão que a solução era amputar a pata e apeteceu-me chorar, e senti uma certa angustia, como é que um gato fica só com três pernas? Aí, o Veterinário foi a pessoa mais solidária que eu podia encontrar, como era um gato de rua e eu estava disposta a ficar com ele ofereceu-se para pagar a operação e eu arcava com as despesas de internamento. Explicou-me que um gato ficava bem só com três patas, que ele iria

TRIPÉ

compensar perfeitamente a falta da patinha com as outras três e que ia ser um gato muito feliz. E ficou na clínica, foi operado no dia seguinte, a operação correu bem e dois dias depois foi para casa. Improvisei uma sala de tratamentos numa das casas de banho, todos os dias lhe limpava a ferida operatória e colocava a pomada até que foi tirar os pontos. No entretanto foi crescendo, e andava perfeitamente mesmo só com tês patas. Entretanto, ao escolher o nome, com o sentido de humor que o caracteriza o meu filho sugeriu Tripé e todos concordamos que era um nome muito adequado. E, o Tripé fez jus ao seu nome, mesmo só com três patas, começou a saltar para cima das coisas e de dia para dia saltava mais alto, sem dificuldade nenhuma. Passaram três meses, é um gatinho muito ativo, gosta de se atirar às plantas, de cavar nos meus vasos até me fazer perder a paciência, de subir para a mesa da sala onde cismou com o arranjo, tratando de cavar entre o musgo seco e atirá-lo cá para fora. Corre muito bem, nem se nota que lhe falta uma pata, quando anda coxeia um bocadinho, mas quando resolve correr nada o segura. Desenvolveu uma amizade muito especial com o meu cão, que o adotou completamente, que o protege e que vela por ele quando ele sai para o jardim, enrolam-se os dois, ensina-o a lutar e defender-se, passam horas a brincar. E eu fico feliz a observá-los e penso que valeu a pena salvar o Tripé, mesmo que ele tenha ficado sem pata, acho que é um gato que foi bafejado pela sorte, naquela noite em que a minha filha o encontrou, podia ter morrido ali sozinho, tão pequenino, mas não morreu, porque ela por acaso viu-o, e resolveu levá-lo com ela. E, não é que a linha que separa a vida da morte ou o infortúnio da sorte é uma linha mesmo tremelicante? Ou então não temos também todos nós um papel preponderante no desenrolar da sorte? Eu acho que também tive sorte, contribui para a sorte de um gatinho, ganhei um Tripé malandro, mas meiguinho e amoroso, e como garantiu o Veterinário, parece-me um gato muito feliz.

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