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BIRD Magazine

IMPERFEITAMENTE PERFEITA

RAQUEL EVANGELINA
Sempre fui uma miúda no meu canto. Quando era adolescente, naquela idade parva porque todas passamos, era uma miúda que disfarçava a minha insegurança com o meu sentido de humor. Esse sempre me salvou das situações mais embaraçosas em que me metia ou das bocas que ouvia de colegas mais maldosos, as quais desvalorizava mas lá no fundinho mexiam comigo mesmo que não admitisse. Não era considerada uma rapariga popular. Não era propriamente bonita, nem sequer magra, o que nos deixa muito mal connosco próprias porque achamos que nunca o nosso “fraquinho” olha para nós com tanta miúda mais gira e jeitosa à minha volta. Dei em boa aluna, canalizei a minha atenção nos livros e não me arrependo disso. Apesar de achar que perdi algumas coisas em não me valorizar mas nem tudo foi tempo perdido.
Na faixa dos 20 e tais já melhor fisicamente mas não o suficiente comecei a pôr um pouco a insegurança de lado apesar de achar que continuavam a existir 1500 raparigas mais interessantes e mais bonitas que eu. As poucas relações que tive não duraram. Achei sempre que o problema era eu não ser nada interessante. Percebi mais tarde que elas não duraram porque não poderia esperar que alguém gostasse de mim quando nem eu própria lá no fundo gostava. Quem me via na rua poderia até achar que era uma mulher confiante mas nem por isso. Em contrapartida tal como aconteceu no secundário canalizei-me em outras coisas e tirei uma licenciatura com boa nota e consegui sempre trabalho e, o mais surpreendente, na minha área com tantos colegas meus há espera anos de um lugar. Aproveitei também para viajar muito com as minhas amigas porque a vida voa e deve ser sempre aproveitada.
Cheguei aos 30 e tenho outra visão de mim. É cliché dizer que aos 30 a vida muda. Mas de facto tornei-me mais autoconfiante e isso mudou em tudo a minha forma de percecionar o mundo. Arrisquei mais profissionalmente. Na área pessoal tenho feito coisas sozinha que nem sequer acompanhada alguma vez pensei ser capaz de fazer. Desafio-me todos os dias. Mas o meu maior desafio é aceitar-me e abraçar os meus defeitos. Há dias maus. Há dias em que por um ou outro motivo fico mais desanimada e a insegurança vem ao de cima. Mas já me mentalizei que há coisas que não mudam. Por muito forte que seja há sempre uma palavra ou outra que me irá magoar, não pelo seu conteúdo mas por ser proferida por quem não espero. Não conseguirei disfarçar a minha má cara quando as coisas não estão bem. E também nunca conseguirei conter as lágrimas quando estou triste ou quando alguém desata a chorar à minha frente. Não é que considere chorar por solidariedade um defeito mas também não é uma virtude. Também não me parece que me vá transformar numa fada do lar e isso é um defeito. Nem tanto para mim, mais para a minha mãe e para aqueles homens que esperam ter uma esposa bela, recatada e do lar. Mas também já aceito melhor que tenho coisas positivas. Consigo dar bons conselhos (aos amigos, não a mim), sou boa a fazer surpresas e apesar de tudo acho que tenho bom coração. Não me meto na vida dos outros. Não consigo guardar rancor (se calhar isto deveria ser considerado defeito). Sou desenrascada e se for preciso ir sozinha para a China vou mesmo que não perceba patavina de mandarim. E o mais importante, aprendi que por vezes a culpa de algo não dar certo não é nossa. Não adianta acharmos que as coisas acabam porque ninguém é capaz de gostar de nós, porque não somos merecedores de amor. As coisas acabam por outros motivos. É claro que haverá sempre miúdas mais interessantes e giras. Mas nós também somos. Cada um o é à sua maneira. Decidi que não vale a pena focar-me no que sempre fui inferior e aceitar que serei sempre imperfeitamente perfeita. Se os outros nos criticam por vezes nem é por sermos maus mas porque eles gostavam de ter/ser algo que nós temos/somos. Sim porque há pessoas que a única forma de se sentirem bem é tentando rebaixar os outros. Ninguém é perfeito e nunca ninguém está bem como é. Mas aprendi que amor próprio é tudo. Posso não ter o corpo da Sara Sampaio e a cara da Charlize Theron, é praticamente impossível isso acontecer, mas caramba hei-de ter algo que até me dê um ar engraçadito. Nem que sejam os montes de sardas que tenho na cara.
Aceitar que não somos perfeitos mas acreditar que de dia para dia podemos melhorar. E que a beleza é algo que vem de dentro para fora. Um dia naquela fase em que não me valorizava grande coisa ajudei dois homens no meu local de trabalho. Um comentou com o outro, que era invisual, a minha beleza. Revirei os olhos e pensei que os homens dizem isso a todas as mulheres até àquelas não tão bonitas. O outro respondeu que não me via mas que via a minha aura e essa sim, era bonita, de boa pessoa. Não sei se acredito em auras mas foi o melhor elogio que me deram na vida. E decididamente ter bom carácter é uma das minhas maiores metas. Isso e gostar cada vez mais de mim. Nunca posso esperar que quem esteja comigo me dê algo que não dou a mim própria. E acima de tudo perdoar-me quando errar. E ter a capacidade de começar tudo de novo.

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