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PERDA DE FOCO [UMA CRÓNICA BERLINENSE]

PEDRO MONTERROSO
Sebastian chegou tarde à mesa redonda, onde os mais recentes amigos semanalmente discutiam os mais variados assuntos. A ideia tinha sido sua, criar uma tertúlia regular com assuntos políticos, sociais e dos mais variados temas no espectro filosófico. Queria impressionar a recente namorada. Estudante de sociologia, artista, feminista e vegana. Com um corpo que impressionava, pela prática de escalada, com todos os músculos e curvas que levavam o Sebastian para a mais recente incursão depois da conquista: a manutenção.
Já tinha 6 meses que o encontro se organizava às quartas-feiras e para isso tinha trocado o treino de boxe para os domingos de manhã. Além de não poder mais encontrar os amigos que iam sempre às quartas-feiras aos treinos, deixou de sair até depois das 2h aos sábados à noite. Agora, só ia ao barzinho, bebia uma cerveja artesanal em copo, conversava sem a estridência das piadas, que costumavam animar noites que acabavam na segunda-feira numa aula de programação analítica, e na hora em que iriam para uma discoteca, ele ia embora. Por fim, deixou até de ir ao bar e começou a ir ao teatro, ao cinema mudo, ou outros filmes europeus dos anos 30 e 40, no Babylon, um dos cinemas mais icónicos da cidade.
Cumpriam-se nessa noite precisamente os 6 meses dessas reuniões e o assunto para este dia era o veganismo, decidira Mark, na semana anterior com consentimento de todos. Sebastian sabia que esse era o ponto mais crítico na odisseia para impressionar Katharina.
Era um comedor de carne exímio. Vegetais, frutas e afins eram tudo acompanhamentos da única comida a sério, a carne. Sabia o conquistador que nesse serão, os amigos intelectuais de Kathy estariam armados até aos dentes, de argumentos para o derrotar e impressionar a sua namorada, que era estimada e respeitada (uma forma intelectual de dizer cobiçada) por todos os progressistas daquela faculdade de ciências sociais e artes. Menos Lucy. Aliás, ninguém sabia bem como aquela aquela americana, que mal falava alemão, entrara para o grupo.
Nessa quarta-feira, o jovem chegava atrasado. Estava de desejos satisfeitos, vinha de um churrasco. Depois de uma tarde entre amigos, onde rodaram bifes, salsichas, chouriços e cervejas baratas mas fartas para acompanhar. Não obstante, não seria a exagerada ingestão de carne a causadora do foco da (des)atenção do grupo.
Assim, que se sentou numa das cadeiras da mesa apertada, num café atafulhado de livros em paletes iluminados a meia luz, produziu-se um som inibidor. O rubor na cara de Katharina denunciou a vergonha que sentira do seu companheiro. O tecido de pele inflado de ar em contacto com as nádegas pesadas e repentinas do pugilista, emitiu um som grotesco de um gás soltado pelo orifício anal, o que, eufemismos à parte, soou a um grande peido.
Em geral os que ali se sentavam, fizeram de conta que nada se tinha passado que é o que faz quem se apercebe do embaraço em que se coloca quem assim se peida. Sebastian, fazendo de conta que nada era com ele, como todos nós algum dia já o fizemos, levantou-se e roçou mais uma vez as calças na cadeira, como quem mostra num ato irrefletido que o som, era exterior a ele. Foi um som da cadeira e não era o que parecia. Contudo, na tentativa de convencer o público nesta teatralidade social que se quer livrar da culpa, este segundo som emitido soou mais autêntico que o primeiro. Este sim, pareceu uma verdadeira bufa!
Mais uma vez, numa atitude muito alemã, todos simularam estarem focados na discussão, menos o rubor na cara de Katharina que denunciava o constrangimento. Os amigos, que afinal eram só amigos de Kathy (assim lhe chamavam) continuavam a discussão sobre as questões do veganismo e da produção animal e de como a aplicação terminológica de “produção” objetivava a própria vida e era uma consequência da exploração capitalista.
Sebastian continuava incomodado com o que tinha sucedido, sabia que, apesar de todo o parlapiê, o foco daquelas cabeças pensantes estava direcionado para um assunto bem mais escatológico, não tivesse sido ele o autor de 2 grandes (pretensos!) peidos. No entanto, sentia, que eles tão pouco mereciam a verdade. Odiava tudo aquilo. Kathy nem sequer o olhava. Mark, o esquerzóide que se sentava ao seu lado, parecia rir-se interiormente enquanto trocava uns sorrisos secretos com Katharina.
No entanto, querendo desmascarar toda aquela fantochada de esquerda-caviar, que sempre o olhara como um conquistador viking que havia, por certo, invadido o coração de uma feminista bonita e inteligente, Sebastian avançou com uma pergunta em tom provocatório nesse círculo pró-vegano:
– Mas se, realmente, estão todos a defender a não “produção” animal, porque se sentam em cadeiras de couro?
– Estas cadeiras, não são de couro, é um material sintético, que imita o couro. – respondeu um tal, com uma barbicha Che mas muito melhor aprumada.
– Sim, este bar tem um certificado vegan, no vidro da porta, Sebastian… – sublinhava Katharina.
– Mas… – respondia, em retaliação – se assim é, então porque imitam o couro e não colocam um tecido de algodão ou cânhamo, cortiça, sei lá. Parece-me contraditório. – lembrando-se do traque, que não tinha sido traque, mas todos o haviam, por suposto, considerado como tal.
– Muito bem visto – dizia num tom inaudível, Lucy, que nunca se demarcava nas discussões, apesar de ter fama de ser uma leitora ávida, que tirava sempre as melhores notas da faculdade.
– Despropositado, como? – perguntava o da barbicha.
– Como quem quer ter todo o conforto que os outros têm mas se quer evidenciar com uma distinção de classe.
– Não, necessariamente. – respondia-lhe o que estava ao lado de Kathy e que Sebastian desconfiava de lhe enviar sorrisos secretos.
– Sim, Seba

stian – rematava a musa da mesa – o veganismo surge no contexto da pós-modernidade associado também ao não desperdício de materiais da época moderna que………….. – já tudo soava a blábláblá na cabeça do nosso protagonista.

Calou-se, anuindo com leve simpatia, afinal sabia ser cortês. Num relance, Kathy sorriu para o lado, não mais prestando atenção ao seu namorado. A discussão continuou.
Sentindo, o moço, uma pequena dor de barriga, consequência da comida e da bebida do churrasco entre os seus antigos verdadeiros amigos, pediu permissão, teria de abandonar o grupo. Descoseu-se numa desculpa, pedindo permissão e olhando para a namorada que afirmou peremptoriamente que não, ela iria ficar com o grupo. O pobre, de barriga que estava mais tempestuosa sentiu que, agora sim, poderia soltar uns gases. Levantou-se, na melhor das cortesias, vestiu o casaco, deu ainda um beijo à namorada e deixou a mesa.
30 segundos depois, um cheiro invadiu toda a mesa redonda. Ninguém, nem na mais solene cortesia poderia ignorar o cheiro. Sebastian, qual cowboy altivo e enfatuado, fechava no final do corredor a a porta do bar, com um sorriso leve como um punho que executa um knock-out. Aquilo sim, pensava, não seria uma simulação. Ninguém na mesa ficou com dúvidas Kathy fora conquistada por um montanhês. Menos Lucy. Lucy apaixonara-se.

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