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AMAR NA SOLIDÃO

INÊS LOPES
Já me debati imensas vezes acerca da ligação humana, tendo chegado várias vezes à conclusão de que a busca pela unidade com outra pessoa pode ser causadora de muita da infelicidade no mundo. 
Por vezes agimos como se estivéssemos acima de questões do coração. Talvez porque já as vimos corroer pessoas que respeitamos. Questiono-me se teremos esta atitude porque o amor, na falta de uma palavra melhor, é um jogo que falhámos em entender, ou que optámos por não jogar. De uma maneira ou de outra, somos e seremos sempre levados para dentro do seu mundo tragicodoce. 
Um mundo onde continuamos a questionar quem devemos amar, como o devemos fazer e porquê. Onde continuamos a sofrer, e a viver. Não é isso o que fazemos da vida? Esperar que sejamos um pouco mais amados?
Será que amamos porque temos medo de estar sozinhos? Talvez. Mas a partir do momento em que começamos a amar alguém continuamos a temer a solidão. Temos medo que aquela outra parte de nós caia, e nos deixe num outro solo, silencioso por fora, barulhento por dentro, numa memória preenchida pelo passado.
Talvez o amor só exista porque existe solidão. Talvez o amor não seja esta incógnita, esta inquetação, este delírio que fazemos dele. Talvez não seja uma esperança utópica, mas sim algo irrevogável, contra o qual não podemos lutar. Isso a que chamamos amor não passa de uma resposta a duas pessoas que não sabem estar sozinhas. É egoísta.
Vivemos sozinhos, morremos sozinhos. Tudo o resto não passa de uma ilusão. As pessoas é que põem projeções românticas em tudo. Achamos que nascemos para amar, quando, na verdade, nascemos para morrer. O amor dói e a vida dói. As pessoas juntam-se com o compromisso de partilhar essa dor, na esperança de que talvez doa um pouco menos, na tentativa de pisar um chão de segurança, de não sentirmos tanto aquilo que tem de ser sentido: a solidão.
Nunca vi o mundo como um sítio onde fui feita para estar, porque aqui sou consumida por perguntas e devaneios interiores. Sou levada a pensar naquilo que é mais incompreensível. Sou levada a pensar no amor.
Mas quem sou eu para falar de amor, afinal? Apenas foco aquilo que vou retirando da vida, mas nem isso é certo, e nunca chegará a mim como sendo algo certo. Quem sabe, talvez os poetas estejam certos. Talvez só nos reste o amor.

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