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A VIDA NO TEMPO DAS CHUVAS

JOANA BENZINHO
A chuva na Guiné tem data marcada para começar e para terminar. Dizem os mais velhos e mais sábios que começa a 15 de maio e termina com o lava cruzes a 1 de novembro, véspera de finados.
Neste período de 5 meses e meio a natureza transforma-se e torna-se farta naquele país. As ervas crescem e pintam de verde os campos da Guiné, quase tapando os cajueiros que se têm vindo a tornar predominantes na geografia guineense; o arroz enche as bolanhas de ervinhas finas e elegantes e de um verde vivo; os rios e braços de mar ganham outra cor com as diferentes tonalidades da flora que os rodeiam e que mostram neste período toda a sua vitalidade.
A água absorve uma pequena percentagem do território neste período, tornando as margens pantanosas em parte integrante dos rios com o aumento do seu caudal.
É nesta época que a água das chuvas toma muitas das picadas, tornando-as quase intransitáveis e dificultando a vida a quem necessita de se deslocar. Os toca-toca insistem em aventurar-se ao caminho para servir quem não tem outra forma de fugir ao isolamento mas muitas vezes acabam atolados na lama, outras vezes quase submersos em verdadeiros lagos que se criam em profundos buracos “cavados” pela violência da precipitação. Não chove o dia todo. Normalmente cai uma grande quantidade de água concentrada nuns minutos e que se faz previamente anunciar por uma apreciada brisa de ar mais forte que corta um pouco do calor húmido desta época. Nessa altura, é muito comum ver a criançada em Bissau debaixo dos beirais a receber a água com uma alegria imensa, a tomar banho com aquele chuveiro improvisado e cheio de pressão.
Pára de chover e rapidamente a terra fica seca, tal não é a temperatura.
À noite, os raios e o forte ruído dos trovões criam imagens maravilhosas, dignas de registo.
Disse-me certa vez um ancião ( homem grande) que a única coisa de que o guineense tem medo é da chuva, e é capaz de ter a sua razão. Porque a chuva , quando forte e intensa, leva-lhe parte do seu país e pode ousar levar-lhe as colheitas, a casa, o pé de meia acumulado durante uma vida.
Esta ano – muito possivelmente fruto das alterações climáticas – trocou as voltas à sabedoria popular.
No dia dos namorados, em Fevereiro, Bissau adormeceu com uma carga de água, antecipando em 3 meses a primeira chuva do ano.
Na véspera do dia de finados, na semana passada, não houve chuva que lavasse campas para o dia de homenagem aos familiares que já partiram. Só muito calor e uma humidade que normalmente não se fazem sentir nesta época do ano.
Desta vez parece que ganhou o fenómeno do aquecimento global e das alterações climáticas, deixando os guineenses com um período das chuvas irregular e com menos precipitação no cômputo geral, o que pré-anuncia alguns problemas na produção do arroz, com as bolanhas secas ou com pouca água em algumas partes do país.
Vamos ver o que lhes (nos) reserva o tempo seco que agora começa.

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